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15 setembro, 2009

O Triste Fim de Maiakóvski

Como morreu Vladímir Maiakóvski? Boa pergunta. A versão oficial aponta para um suicídio melodramático, de acordo com o temperamento teatral do personagem. Na nova União Soviética de Stálin -a União Soviética da conformidade, da submissão absoluta, dos planos quinquenais-, o nome maior da vanguarda russa, ostracizado e deprimido, decidira sair de cena. Existe uma outra versão, igualmente colorida: a amante, Lília Brik, uma colaboradora da polícia secreta, teria denunciado os comportamentos "desviantes" de Maiakóvski, e não necessariamente na cama. Caído em desgraça, Maiakóvski foi assassinado. Ou, como na piada bolchevique, barbaramente suicidado. As circunstâncias da morte continuam a fascinar os estudiosos da matéria. Mas, suicidado ou suicidando-se, resta uma certeza que é difícil iludir: Maiakóvski morreu de ingenuidade. Não foi o único e, escusado será dizer, não foi o último: a mesma intelligentsia que recebera os bolcheviques de braços abertos na Rússia campesina e analfabeta de 1917 seria aquela que os bolcheviques acabariam por estrangular mais tarde. Mas quem sabia disso em 1917? Poucos. Em 1917, o passado arcaico e opressivo dos czares seria enterrado pela paixão fraterna dos vermelhos. Sabemos hoje que a história foi diferente. Mais: a história só poderia ser diferente. Ao contrário do que afirmam os beatos, não existe qualquer pureza benigna no ideal marxista; apenas a certeza de que a sua aplicação prática exige sempre violência e desumanidade, como é próprio das "religiões seculares". Kolakowski explica. Raymond Aron explica. E Maiakóvski, à sua maneira, também. Em 1923, no poema dedicado à amante, "Pro Eto" [Sobre Isto], a desilusão do autor era já tangível: a Nova Política Econômica com que Lênin pretendia levantar a União Soviética saída da guerra civil era a primeira grande "traição" à pureza do ideal. A União Soviética, aos olhos do horrorizado Maiakóvski, "aburguesava-se": esquecia as relações humanas autênticas, preferindo os prazeres efêmeros. O poema termina com uma nota de esperança: no futuro, proclamava Maiakóvski, seria possível retomar o rumo e viver um amor desinteressado e verdadeiramente fraternal. (...)

João Pereira Coutinho para a Folha.

20 julho, 2009

O Canibalismo Amoroso - Affonso Romano de Sant'Anna

Segue a introdução do livro que comecei a ler essa semana, só para dar um gostinho...
Meu desejo é...

De uma certa maneira, este livro pretende escrever a história do desejo em nossa cultura. A história do desejo dramatizado através da poesia. Os poetas sempre foram considerados os grandes cantores do amor. Pois aqui eles nos servem de guias. Na verdade, através da linguagem deles estou querendo falar das fantasias eróticas do homem comum. Se a história do homem é a história de sua repressão, estudar o desejo e a interdição é uma maneira de penetrar melhor nessa mesma história. Aliás, se os poetas não representassem o imaginário social, suas obras não resistiriam nem teriam tido importância na configuração ideológica da comunidade. Portanto, esses autores que aqui estudo não são nem mais nem menos neuróticos que seus leitores. Se os leitores precisam de suas obras para elaborar suas fantasias é que esses textos são o espelho da fala alheia.
Por isso algumas partes têm subtítulos que se parecem a romances de folhetim ou de aventura. Este é um livro de história, onde o personagem principal é o Poeta-Édipo diante da Mulher-Esfinge. Daí esses capítulos do folhetim do desejo com títulos assim: “Ofélia e o Cisne no espelho líquido da morte”, “Do Pan violador ao Arlequim sedutor”, “O macho castrador reage ante a mulher ameaçadora” etc. E cada capítulo se abre com algumas “proposições”, que são a síntese do enredo, para que o leitor se organize melhor nas peripécias inconscientes do texto.
Adianto que este não é um estudo psicanalítico de autores, mas de obras e textos. Não estou, em princípio, interessado em detalhes biográficos de determinados indivíduos, mas preocupado em localizar em seus textos os sintomas que revelam o inconsciente dos textos. Desse modo, estou interessado no inconsciente dos textos. Esse inconsciente surge aqui como sinônimo de ideologia. Entender o inconsciente desses poemas é entender o inconsciente de uma comunidade e, portanto, sua ideologia amorosa. Assim, o que seriam neuroses individuais se transforma em alucinações coletivas, socializadas pela linguagem literária. Nesse sentido, tomo o texto com uma manifestação onírica social. Considero o texto como uma forma de sonho coletivo, pois os leitores abrem seu imaginário às provocações do imaginário do poeta e aí se hospedam. As metáforas e imagens passam a ser de utilidade pública. Estou, portanto, encarando o texto também como uma forma de mito. Se nas comunidades primitivas os mitos serviam para a tribo expressar seus temores, anseios e perplexidades, o texto poético, entre outros, tem essa função antropológica em nossa cultura. O poeta é o xamã que, ao invocar suas alucinações, faz com que, através delas, toda coletividade reviva seus fantasmas.
De uma certa maneira, este livro é também a história da representação do corpo nos (des)encontros amorosos. Sintomaticamente, aí se verá que o corpo feminino ocupa grande parte do discurso, enquanto o corpo masculino é silenciado. E, reveladoramente, embora o corpo masculino esteja ausente, a voz que fala pela mulher é a voz masculina. Essa é uma constatação aparentemente simples, mas de conseqüências graves. Por onde andou o corpo do homem durante todos esses séculos, salvo raríssimas exceções que, por serem tão excepcionais, só confirmam a regra? Evidentemente, essa ausência do corpo masculino e essa abundância do corpo feminino começam a ser explicadas pelo fato de que o homem sempre se considerou o sujeito do discurso, reservando à mulher a categoria de objeto. Como sujeito, portanto, ele se escamoteava, projetando sobre o corpo feminino os seus próprios fantasmas. Aí ele se porta como ventríloquo: o corpo é d outro, mas a voz é sua. Certamente, aí está também um preconceito histórico, segundo o qual o homem se caracteriza pela razão, pelas qualidades do espírito, enquanto a mulher é só instinto e forma física. A conseqüência disso é múltipla: transformada em objeto de análise e de alucinações amorosas, o corpo da mulher também é o campo de exercício do poder masculino. O homem, então, fala sobre a mulher, pensando em falar por ela. Descreve seus sentimentos, pensando descrever os dela. Imprime, enfim, o seu discurso masculino (muita vez machista) sobre o silêncio feminino. Certamente, essa situação se alterou, sobre tudo nos últimos vinte anos. Mas, por questão de espaço e método, não analiso as produções mais recentes. Isso é assunto para outra pesquisa.
Pode parecer estranho o que vou falar, mas a analise do imaginário amoroso mostra que a nossa cultura está cheia de péssimos amantes. E, repito, os poetas não inventaram nada. A análise desses textos, sob a ótica psicanalítica, revela um desajustamento entre o real e o imaginário, e confirma a afirmativa de Platão, de que desejo é indigência. Esses textos são uma espécie de “relatórios” e “depoimentos” sobre a vida amorosa, antes que os americanos vulgarizassem esses procedimentos para saber da vida erótica das pessoas. A rigor, a literatura, como produto cultural, foi sempre o lugar das grandes confissões, porque nela o desejo sempre expôs sua ânsia de realização. Escrever é desejar.
É espantoso ver (com a ajuda Antropologia,da Sociologia e da Historia) como o medo às mulheres (a misoginia) é uma praga, desde as tribos mais primitivas às sociedades mais industrializadas. È aterrador como o mito da mulher castradora, o mito da vagina deitada, da mulher aranha, e da serpente venenosa vem da antiguidade aos textos mais modernos. Já na Grécia, estava aquela Esfinge sufocando os impotentes. Lá está Echidna, metade serpente e metade mulher; lá está Charibdes – mulher sanguessuga engendrada pela Mãe Terra; já Omfalo, como Deusa Terra matava seus amantes; Empuses e Keres eram ninfas-vampiro, e esta bebia o sangue dos jovens apos a batalha. E existe uma Afrodite – conhecida como “Andrófoba” – que assassinava seus amantes como as deusas Ishtar e Anat. As Harpias eram as mulheres-demônio, Melissa era a abelha rainha e Medusa era uma das Górgonas castradoras dos homens. E, entrando pela mitologia germânica, a Walkírias atualizam as Amazonas na castração erótica mortal. Todas essas figuras complementam os textos sagrados, que nos falam da maldade devoradora de Kali, Lilith e Eva.
Por isso, já que a literatura é o mito rrevisitado, aí estão as mulheres fatais, como Salambo (Flaubert), Carmen (Merimée), Herodiade (Mallarmé), Cleópatra (Gauthier), Salomé (Wilde), Kali (Swinburne) tantas ouras, que o imaginário Greco-cristão construiu esquizofrenicamente para dramatizar o temor de Eva e amor de Maria. Portanto, a historia da metáfora amorosa é, em grande parte, a historia do medo de amar e da incapacidade de vencer fantasmas arcaicos e modernos. É clar que essa historia é a historia contada por homens. E, posto que o homem se elegeu como redator da historia, escolheu para a mulher o papel do outro, colocando nela a imagem do mal e da desagregação.
Uma coisa me fascinou entre outras neste estudo: ver como cada época organiza literariamente seu imaginário erótico. É com se fosse colocada uma linguagem ou uma moeda em circulação e, de repente, todos começam a expressar seus fantasmas dentro daquele código. Como se organiza essa linguagem dentro, acima ou a despeitos dos conhecidos “estilos de época”, é matéria de meditação, e a isso me refiro varias vezes dentro desse livro. Por exemplo, durante o Parnasianismo, o padrão feminino de beleza foi representado pela estatua de Venus e todos os poetas se transformaram em escultores-cultores desse mito, esculpindo em seus versos o seu pulsante desejo. Já no Simbolismo, passa-se dessa estatua desejante e desejada como uma Esfinge, para a temática da noiva morta. Quase todo poeta descreve uma noiva morta, embora isso nada tenha a ver com a biografia de cada um, pois maioria deles morreu burocraticamente (in)feliz e casado. No entanto, a poesia está cheia de cadáveres de virgens e Ofélias, visitas a cemitérios e um definhar constante dos amantes ante os caixões. A mesma coisa a respeito das freiras mortas em suas celas, como se houvesse ocorrido com elas e com as noivas alguma epidemia, ou como se o fato de se falar tanto de freiras e monjas fosse sinal de algum surto espiritual que teria levado tantas virgens aos conventos. No entanto, isso não pode ser medido pelo real, mas, sim, pelo imaginário, que se organiza de acordo com outros imaginários importados de outras culturas. Parafraseando conhecida corrente sociológica, pode-se dizer que se instituiu uma política ou economia do imaginário dependente, que faz com que, aqui nos trópicos ou na fria Noruega, se retrabalhem as alucinações de Baudelaire e Poe.
Tendo esse estudo me obrigado a mergulhar mais fundamente em certos períodos, com o Parnasianismo e o Simbolismo, muito pouco estudados por causa do preconceito que o Modernismo lançou contra o século XIX, de repente me defrontei com descobertas fascinantes, que ajudam a entender melhor nossa cultura e ideologia. Um dia ainda se poderá fazer uma reanálise do Modernismo, para se pesar esse prejuízo que nos causou com sua febre de recomeçar do zero as coisas. Pareceu-me que os poetas do Parnasianismo e Simbolismo, entrevistos como autores sintomáticos, podem nos fornecer um rico material para a compreensão literária de nossa cultura. Por pouco, por exemplo, quase não transformo o estudo dos poetas chamados de decadentes e simbolistas num livro autônomo. Mas, tendo resistido a essa tentação e chegando a poetas como Bandeira e Vinícius, procurei revelar outro Bandeira e outro Vinícius que não aqueles conhecidos. E é interessante constatar como a obra de Bandeira está muito mais ligada às matrizes ideológicas do século XIX do que se pensa. E, de repente, me vejo utilizando-o para acabar de entender o que foi o crepuscularismo erótico e estético ao tempo da art nouveau e da belle époque. Por outro lado, e Manuel Bandeira, a dualidade do amante, entre a santa e a prostituta e a constituição de uma prostituta sagrada como simbiose, dramatizam um problema secular, que se espera nossa cultura esteja esgotando. Vinicius é um poeta muito mal conhecido. Sua poesia, sobretudo a inicial, é de suma importância para se conhecer a utilização de mitos arcaicos na literatura moderna. Sua fragmentação dionisíaca e órfica, entre a “mulher única” e “todas as mulheres”, remete para uma esquizomorfose histórica. Meu estudo se interrompe com Vinicius, porque ele fecha um ciclo de visão da mulher que nos vem do Romantismo. Daí para a frente, a questão do desejo se torna mais diferenciada e parece ter passado por um momento histórico, com a grande liberação erótica dos anos 60 e o surgimento de várias outras linguagens e posturas ideológicas realmente instaladas na modernidade. Mas sobre isso tive de me abster de tratar, não só porque é, em si, uma vasta pesquisa, como também porque sou produtor de poesia, que tenta organizar-se dentro de uma nova visão da realidade, onde o amor entre o homem e a mulher se transforma.
Enquanto ia escrevendo esse livro, em cerca de dez anos de pesquisas, cada vez mais me convencia de que o que estava dizendo aqui, sobre a literatura brasileira, era valido para a grande maioria das literaturas ocidentais de que tenho notícia, e poderia ser exemplificado também na música, no teatro ou nas artes plásticas. Durant as pesquisas, várias vezes fui às literaturas francesa, inglesa, italiana, alemã, portuguesa e espanhola, para verificar o trânsito de certas imagens obsessivas do desejo, e de lá voltava com a confirmação da universalidade refletida na literatura brasileira. Estou convencido de que estudos paralelos (e melhores que este) podem ser desenvolvidos, tomando-se aquelas literaturas como objeto, e assim se entenderá melhor o que é a história do desejo no Ocidente.
Pensei, originariamente, em intitular este livro assim: “O Desejo e a Interdição do Desejo na Poesia Brasileira”. Nessa fase, cheguei a publicar um ensaio: “Literatura e Psicanálise: revendo Bilac”, que está no meu livro Por um Novo Conceito de Literatura Brasileira. A idéia do canibalismo ainda não havia se configurado tão claramente nos textos que estudava. Naquela direção, estudaria a questão de outra maneira: tratava-se de ver como o desejo se deixava representar, tanto na figura da mulher quanto na figura da pátria e na própria palavra usada pelo poeta. Assim, em poemas como “O Caçador de Esmeraldas” (Bilac) e “Martim Cererê” (Cassiano Ricardo), a pátria era a mulher onde o conquistador-colonizador ia verter o sêmen do progresso. Confirmava-se a falocracia econômica, num cruzamento da Psicanálise com a História e a Sociologia. Por outro lado, tomado como fetiche, a palavra (sobretudo nos textos onde o poeta confessa a sua ars poética e nos chamados movimentos de Vanguarda) converte-se no objeto da pulsão erótica. O poeta fala da palavra como se fala de uma mulher. Não é outra, aliás, a direção do discurso filosófico e estético ocidental: a verdade é uma mulher atrás de um véu, e cabe ao pensador viril despir, possuir ou violentar esse ser desejável e desejante com seu logos spermaticos.
Ditas, mais ou menos, algumas das coisas que pretendi, agora confesso algumas carências deste livro. Por exemplo: preferi trabalhar apenas com poesia, por questão de método, mas se poderia desenvolver igual estudo sobre a ficção. Dezenas de alunos meus realizaram teses de mestrado e doutorado explorando esses caminhos no romance, demonstrando como é fecunda essa linha de pesquisa. Por outro lado, intencionalmente, não me concentrei nos textos escritos por mulheres: isso seria uma outra empreitada, para a qual estimulei sobretudo alunas em suas teses e projetos de pesquisas. Sei que só quando se desentranhar do silencio a voz feminina recalcada, se terá um panorama mais amplo da história do desejo em nossa cultura.
As analises de poemas, aqui, não são exaustivas. Tive de me conter para não realizar aquilo que nos seminários e cursos tenho a oportunidade de desenvolver com os alunos. Seria, no entanto, interessante publicar, complementarmente a estas analises, um dia e em outro espaço. Por outro lado ia percebendo que, ao estudar o Romantismo, o Parnasianismo e o Simbolismo, grande numero de autores menores e desconhecidos ajudava a reconstituir uma teia de significados importantes para a análise do inconsciente ideológico. Por serem autores menores, cristalizavam com mais facilidade a linguagem alheia. Eram autores sintomáticos. Por outro lado, como a maioria dos autores estudados viveu e escreveu em completa ignorância do que era a Psicanálise, demonstravam uma espontaneidade às vezes comovedora. Certamente, alguns autores modernos, já sabedores dos mecanismos expostos a partir de Freud, acautelam-se mais ao escrever; disfarce que muita vez se converte em denuncia.
Aproximando-me do fim, esclareço que esse estudo é interdisciplinar por natureza. A Psicanálise aqui é o fio condutor, em torno do qual se armam os conhecimentos antropológicos, sociológicos, históricos e literários. Por outro lado, utilizei-me tanto de Freud e Jung quanto de Melanie Klein ou Lacan, quando julguei necessário e procurando um discurso de coerência que atravessasse o discurso deles e de outros ligados a essas escolas. Muitas vezes, surpreendi-me com o fato d que Freud, Lacan ou Jung pudessem ser falocêntricos, como hoje se tornou fácil demonstrar. Espanta o caráter de enigma que conferem à mulher, como se estivessem realmente diante de outro. É sintomático que seja Freud quem tenha dito: “A grande questão... para a qual não encontrei nenhuma resposta durante trinta anos de pesquisas sobre a natureza da mulher é a seguinte: O que querem elas enfim?”.
O titulo do livro, O Canibalismo Amoroso, por cobrir praticamente todas as áreas em estudo nesse volume e pela multiplicidade de significados, pareceu-me sinteticamente mais justo. Preferi não teorizar, nesta introdução, sobre esse assunto partir logo para a análise objetiva dos textos, introduzindo, aos poucos, a teoria sobre o canibalismo, toda vez que fosse necessária. O canibalismo é um traço em nossa cultura, muito mais significativo do que se pensa, tendo gerado até movimentos estéticos vanguardistas na Europa e no Brasil no princípio do século. Não é a toa que o cristianismo é tido como representante, no Ocidente, da ordem canibal ancestral. A idéia do ágape cristão (ceia do amor) e o ritual da hóstia (palavra que significa “vitima sacrificial”) sã uma atualização de um rito intemporal, onde deuses comem homens, homens comem deuses, ou, então, são dramatizados no sangue dos animais mediadores. O canibalismo como ritual pode ser visto, por exemplo, na era cristã. Os epiléticos, em Roma, bebiam o sangue quente dos gladiadores, e o médico do Papa Inocêncio VIII recomendou-lhe sangue de três crianças de dez anos. Da mitologia grega aos mitos indígenas brasileiros, abundam a omofagia e a antropofagia. Por isso, o canibalismo amoroso é apenas uma das formas desse ritual; talvez o que concentre o patológico, o religioso, o alimentar, e, imaginariamente, o mais viável e compulsivo. O leitor verá que, da mulata romântica, abatida e servida na cama-e-mesa do senhor, à “Receita de Mulher” de Vinicius de Moraes, a metáfora persiste como um álibi duplo. O canibalismo amoroso pode realizar-se através da violência sadomasoquista ou através da sedução órfica e dionisíaca.

13 abril, 2009

O cigarro de Sade - LUIZ FELIPE PONDÉ

Não poderia deixar de registrar por aqui a coluna do Pondé de hoje, para variar, GENIAL!

Temo pessoas que não têm vícios. O novo hipócrita
é magérrimo, "verde" e antitabagista

SADE É sem dúvida um autor famoso. Para alguns, ele é um gênio que grita pela liberdade em meio ao século das Luzes (um Voltaire maníaco por sexo), para outros, mero tarado sexual com dotes literários medíocres. Apesar de tê-lo lido com alguma atenção e entender um pouco o que os especialistas veem nele, suspeito que, antes de tudo, seu sucesso se deu porque ele era um nobre "em desgraça" que escrevia pornografia pesada (quem não gosta?). Se ele estiver certo, somos todos tarados sexuais. Mas levemos a sério sua "crítica" e vejamos aonde ela nos levaria hoje.Sade funda uma "tradição" que é ver no sexo algo além dele. Muitos o seguiram nessa suspeita de que sexo é mais do que sexo. O Sade político ou psicanalista é o mais famoso. Mas há um Sade "metafísico". Segundo sua metafísica, a Natureza é perversa e cruel e, portanto, a rigor, não há crime ou transgressão porque a regra é o crime e a transgressão. Nesse sentido, ele se aproxima muito dos cristãos antigos conhecidos como gnósticos, caras que afirmavam que o mundo foi criado por um deus mau. Segundo o que nos legou os críticos desses gnósticos, alguns deles se entregavam a todo tipo de sexo, menos o reprodutivo, como forma de desafio ao deus mau. Diriam eles: "Veja, oh! Miserável deus, você nos fez gostar de sexo para reproduzir suas vítimas, por isso fazemos apenas sexo estéril". Já há aqui algum indício da "sexualidade de protesto". Mas o Sade político e psicanalista é mais fácil de circular em jantares inteligentes. Seus frequentadores são consumidores envergonhados de antidepressivos, não aturam pessimismo de gente grande como a metafísica de Sade. A política sadiana identifica na moral social a intenção de nos destruir pela repressão do desejo. Quem busca a "virtude", como sua personagem Justine, é objeto "feito" para ser torturado por uma sociedade que dá corpo à crueldade da Natureza louca. A revolta nesse caso é ser sexualmente "livre": transformar-se no libertino, ou seja, no torturador, identificando-se com a "regra da crueldade gostosa".Já o Sade psicanalista é aquele que "pressente" o gozo da pulsão de morte como natureza essencial do animal louco que seríamos. Violência, revolução e gozo. Depois dele, nunca mais fomos para cama com alguém sem levar junto Freud (mamãe e papai), Marx (e a ideologia de classe), Foucault (e a microfísica do poder invisível), enfim, haja cama grande para tanta gente. Não fazemos mais sexo, fazemos política e sintomas quando temos tesão por alguém. Confesso que no fundo acho esse papo de perversão sexual meio "boring" (um saco): bater, queimar, cortar, apanhar, ser queimado, ser cortado. A mesma lengalenga de sempre. A morte para um perverso é achá-lo entediante. Na realidade, a política sadiana hoje está espalhada em sites sado-maso banais. Acho mais interessante imaginar o que Sade teria escrito hoje, se vivesse em nossa época, dada a delírios de uma nova "pureza". Imagine, caro leitor, que existem pessoas que "salvam" o mundo comendo alface! Um exército de rúculas! O que seria transgressivo no caso da "nova pureza"? Tiraria ele sarro do "pai Obama"? Ou talvez ele fumaria um cigarro no meio de um templo onde se reúnem os fascistas da saúde?Mas tabaco faz mal! Claro que sim, mas ser violentada por cinco caras também faz mal. Fazer sexo nos telhados, como gatos, também faz mal. Por que achar que isso é libertador e fumar não? Vamos adiante, quem é o novo Sade? Que tal comer gordura trans? Ou será que a "ciência da comida saudável" já mudou de novo e agora comer gordura trans combate ataques cardíacos? Vejo um Sade gordo, dilacerando uma picanha em meio a um restaurante de comedores de rúculas. Chorariam? Ou o espancariam? Vaquinhas jamais, mas sádicos comedores de carne e fumantes merecem uma surra? Ou apenas desprezo e nojo? Os nazistas também eram defensores dos animais... Sua Sodoma seria deliciosamente poluída, rindo das "medições" do aquecimento global. No lugar da teoria Gaia da "mãe terra", a "devoradora terra" gargalhando de nossa "devoção verde". O Sade do sexo envelheceu. Hoje todo mundo acha chique achá-lo chique. O novo Sade é aquele que, talvez, debocharia de uma sociedade da saúde. O que nos humaniza são os vícios, não as virtudes. Temo pessoas que não têm vícios. O novo hipócrita é magérrimo, "verde" e antitabagista.

21 março, 2009

Dia Internacional da Síndrome de Down

Em comemoração ao dia de hoje deixo uma dica literária: "O Filho Eterno" de Cristovão Tezza.

“Um filho é a ideia de um filho”; e que, nem sempre, “as coisas coincidem com as ideias que fazemos delas”. Este inconformismo entre sonho e realidade reflete a busca desse andarilho: tornar-se pai.

Trecho para vocês:

"Várias vezes por dia, em sessões de cinco minutos, a criança é colocada sobre a mesa da sala, de bruços. De um lado, ele; de outro, a mulher; segurando a cabeça, a empregada, uma moça tímida, silenciosa, que agora vem todos os dias. Três figuras graves numa mesa de operação. De bruços, a face diante da mão esquerda, que avança ao mesmo tempoem que a perna esquerda também avança; braço esquerdo e perna direita fazem o movimento simétrico de lagarto, sob o comando das mãos adultas, que são os fios da marionete, quando a cabeça é voltada para o outro lado. Há uma cadência nisso - um, dois, feijão com arroz, três , quatro, feijão no prato - a mesma dos passos humanos; uma rede tentaculardo sistema neurológico há de estabelecer dominância cerebral e tudo que dela decorre, ele sonha. No programa, é fundamental reforçar a dominância cerebral, isto é, marcar um dos lados do cérebro como o dominante. Os três se movem como autômatos, naquelas curtas sessões de cinco minutos quase que de hora em hora, quando ele interrompe o livro que escreve - apareceu um bebê no seu livro, o menino Jesus, filho de um burguês vampiro, picareta de imóveis que em 1970 faz discursos edificantes sobre o bem, a moral e os bons costumes, enquanto suga literalmente o sangue da aorta de mulheres jovens e indefesas - e vai para a linha de produção de seu próprio filho. O seu personagem sempre tem o cuidado de proteger os furos caninos n pescoço das vítimas, que desmaiam, com delicados bandeides. O escritor fecha os olhos: talvez seja a ciança que, do seu silêncio, esteja comandando os gestos cadenciados, quase militares, dos três adultos em torno del, e o pai lembra a piada dps pombos que adestram os humanos - e sorri.
Em 1975 estava na Alemanha como imigrante ilegal. Pediu dinheiro emprestado para a passagem de trem Coimbra-Frankfurt e desembarcou na Hauptbahnhof com algumas moedas no bolso, um endereço e o esboço de um mapa das ruas. Era perto dali - poderia ir andando. Atravessou a bela ponte sobre o Main com a mochila nas costas, tentando vencer o pânico que começava a lhe tomar conta da alma. Não conseguia viver completamente o papel juvenil de um Marco Polo descobrindo o mundo, que desenhara para si mesmo. A mítica Alemanha dos livros que leu - Goethe, Thomas Mann, Günter Grass: ele estava ali, pisando aquele solo.Mas havia o medo, onipresente. Se não encontrasse trabalho, o que faria? Era incapaz de dizer uma só palavra e alemão. Chegou enfim ao prédio imenso do Hospital das Clínicas - a interminãvel sequência de letras na fachada lhe sugeria isso, aos pedaços - e foi direto ao subsolo, seguindo as instruções. Deveria procurar um certo Herr Pinheiro. Herr Pinheiro era um simpático argelino que falava todas as línguas do mundo. O medo agora dava espaço para uma euforia crescente - mal terminou de indagar e já foi conduzido a um vestiário, onde recebeu um uniforme todo branco e um armário para guadar suas coisas. Sete marcos a hora, a proposta. Nem precisou dizer sim- sorriu. Euforia. Dominância cerebral, ele pensava, como um mantra, cadenciando os gestos do filho sobre a mesa. Um escravo do antigo Egito, levado às gargalhadas para remar o barco dezoito horas por dia na escuridão do porão - ele riu com a imagem - só pela satisfação de continuar vivo, aguentar a arquitetura daqueles ossos em pé, nem que seja por um único dia a mais. Tão estúpido que veste o uniforme sobre a calça e a camisa, e sai dali um repolho ridículo, até que no corredor uma mulher sorridente, falando uma língua impossível, explicas em gestos bruscos, mas maternais, que ele deve antes tirar a roupa para só então colocar o uniforme. Finalmente adequado, entra na gigantesca lavanderia do hospital. Tempos modernos, ele lembra, estetizando a vida - Chaplin na linha de produção. Como se sente escritor, vive equilibrado no próprio salvo-conduto, o álibi de sua arte imaginária, o eterno observador de si mesmo e dos outros. Alguém que vê, não alguém que vive.
Pega a criança no colo, depois da série de movimentos, e repete a canção idiota que inventou no esforço de construir a imagem de um pai, que ainda não encontra em si mesmo - Era um pitusco pequeninho bonitinho safadinho bagunceiro... - e o devolve ao chão, de face para baixo. A ideia do tempo - não, a presença física do tempo mesmo - só é percebida integralmente quando opróprio tempo, de fato, começa a nos devorar. Antes disso (ele divagará anos depois) , o tempo é a marcação do calendário e mais nada; durante um bom período da vida parece que há uma estabilidade, uma espécie tranquila de eternidade que escorre em tudo que pensamos e fazemos. Derrotamos o tempo; corremos mais rapidamente que ele. Se o demônio aparecesse ali, ele faria o pacto - e sorriu com a ideia. O pai abre o livro de Piaget sobre a inteligência da criança e testa o filho todos os dias - uma corrida contra o tempo, sim, mas nessa época o tempo ainda está imóvel, o que facilita as coisas. Neste momento, se eu ponho esse bonequinho de plástico no chão o bebê vai atrás e vai tentar agarrá-lo; mas se eu ocultá-lo com a mão ou o lenço, a criança vai se desinteressar por completo, como se o boneco desaparecesse. Faz o teste: é verdade. Fica feliz: uma criança normal, fantasia ele. Mais um pouco e o bebê será capaz de reconhecer o boneco apenas pelo pé que ficará à mostra. Talvez amanhã. Ou depois de amanhã. Há um prazo razoável na normalidade. Por enquanto ele ainda não reconhece o boneco apenas pelo pé - o que é normal, ele confere no livro.
Mas o treinamento não terminou. No canto da sala o marceneiro instalou a peça encomendada: uma rampa estreita de madeira que tem a forma de um escorregador para bebês, com proteção lateral. Um linóleo cobre a superfície da madeira. É preciso que essa superfície não seja áspera demais, que não permita o movimento, e nem lisa demais, que leve o bebê a escorregar. A sala se transforma aos poucos num espaço de trabalho; a casa, numa extensão de uma clínica - logo com ele, que passou a vida odiando médicos, hospitais, tratamenos, enfermeiras, remédios, doenças, corredores, morte- uma coisa puxa a outra. Coloca o bebê no topo da rampa, com a cabeça par baixo. Vamos lá, pitusco! Os braços da criança, que está de bruços, impedem naturalmente que ela escorregue - ma so mínimo movimento que ela fizer permiti-lhe descer alguns centímetros. Cria-se uma situação concreta para ajudar o bebê a reencontrar a sua estrada neurológica; segundo a cartilha, a descida da rampa é um auxílio para acelerar o desenvolvimento do rastejar em padrão cruzado, o das crianças normais. Não está no programa, mas o pai ainda coloca um despertador intermitente lá embaixo, no fim da viagem, como um estímulo a mais. A criança não vê o despertador, mas ouve o som estridente, que seus olhos procuram ainda em vão, do alto de seu pequeno abismo.
Deixa lá a criança e tranca-se no quarto para escrever seu livro. O demônio aparece em suas páginas na forma de um dito. Faz dicursos beletristas e virulentos contra DEus e o mundo, e conspira para o fracasso do Ensaio da Paixão, tema do romance. Expressão de um cinismo mal resolvido, hás um toque pesado de grotesco na sua figura. É preciso evitar o estereótipo, ele sabe, pensando alto e longemas não dispõe ainda de um imginário alternativo sólido; vive um mundo, parece, que se esforça duramente para a simplificação mental, e é preciso fugir dela a todo custo. às vezes, tem a viva sensação de que é escrito pelo que escreve, como se suas palavras soubessem mais que ele próprio. (Não sabemos tudo ao mesmo tempo; avançamos soterrando camadas de conhecimento, ele divaga.) Acende outro cigarro e vai à sala - a criança já desceu meio metro. Dá mais corda no despertador - o queijo do ratinho - e volta correndo ao quarto: uma frase imperdível lhe surgiu.
O trabalho na lavanderia era mecânico - uma enorme garra de ferro descia do alto com toneladas de roupas lavadas, largando-as num balcão, e a função dele era separá-las rapidamente. Toalhas de banho, toalhas de rosto, lençóis, fronhas, cada tamanho num carrinho, que assim que ficavam cheios, eram levados para as passadeiras, que por sua vez gastavam as horas esticando manualmente as peças para ofertá-las a uma espécie de impressora rotativa que engolia aquilo, devolvendo tudo dobrado para as mãos de alguém que, com outro carrinho, desaparecia por uma porta distante, de volta ao prédio central."




O filho eterno . Romance. Editora Record, 2007. 223 p.
Prêmio Jabuti - melhor romance
Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) - melhor obra de ficção
Prêmio Bravo! - Livro do Ano
Prêmio Portugal-Telecom de Literatura em Língua Portuguesa - 1º lugar
Prêmio São Paulo de Literatura - Melhor livro do ano 2008


http://www.cristovaotezza.com.br/critica/ficcao/p_fic_o_filho_eterno.htm

03 março, 2009

Ensaio sobre a cegueira


"...como se se encontrasse mergulhado de olhos abertos num mar de leite"

O filme começa e logo aquela imagem excessivamente branca toma conta da tela, a fotografia já começa a pertubar. Cenas desfocadas deixam a sensação desconfortável do que seria não enxergar. Repugnância, revolta, e outros sentimentos repulsivos são transmitidos ao espectadores, bem como no livro - claro que a leitura é mais carregada de olhares (escritor, narrador e personagem). Fernando Meirelles não decepciona. Tem a adorada Juliane Moore. E o guapo Gael Garcia Bernal.




Para relembrar, um trecho:

"O mal da rapariga dos óculos escuros não era de gravidade, tinha apenas uma conjuntivite das mais simples, que o tópico ligeiramente recomendado pelo médico iria resolver em poucos dias. Já sabe, durante esse tempo só tira os óculos para dormir, dissera-lhe. O gracejo levava muitos anos de uso, é mesmo de supor que viesse passando de geração em geração de oftalmologistas, mas o efeito repetia-se de cada vez, o médico sorria ao dizê-lo, sorria o paciente ao ouvi-lo, e neste caso valia a pena, porque a rapariga tinha os dentes bonitos e sabia como mostrá-los. Por natural misantropia ou demasiadas decepções na vida, qualquer céptico comum, conhecedor dos pormenores da vida desta mulher, insinuaria que a bonitez do sorriso não passava de uma artimanha de ofício, afirmação maldosa e gratuita, porque ele, o sorriso, já tinha sido assim nos tempos não muito distantes em que a mulher fora menina, palavra em desuso, quando o futuro era uma carta fechada e a curiosidade de abri-la ainda estava por nascer. Simplificando, pois, poder-se-ia incluir esta mulher na classe das denominadas prostitutas, mas a complexidade da trama das relações sociais, tanto diurnas como nocturnas, tanto verticais como horizontais, da época aqui descrita, aconselha a moderar qualquer tendência para juízos peremptórios, definitivos, balda de que, por exagerada suficiência nossa, talvez nunca consigamos livrar-nos. Ainda que seja evidente o muito que de nuvem há em Juno, não é lícito, de todo, teimar em confundir com uma deusa grega o que não passa de uma vulgar massa de gotas de água pairando na atmosfera. Sem dúvida, esta mulher vai para a cama a troco de dinheiro, o que permitiria, provavelmente, sem mais considerações, classificá-la como prostituta de facto, mas, sendo certo que só vai quando quer e com quem quer, não é de desdenhar a probabilidade de que tal diferença de direito deva determinar cautelarmente a sua exclusão do grémio, entendido como um todo. Ela tem, como a gente normal, uma profissão, e, também como a gente normal, aproveita as horas que lhe ficam para dar algumas alegrias ao corpo e suficientes satisfações às necessidades, as particulares e as gerais. Se não se pretender reduzi-la a uma definição primária, o que finalmente se deverá dizer dela, em lato sentido, é que vive como lhe apetece e ainda por cima tira daí todo o prazer que pode."

Título Original: Blindness
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 120 minutos
Ano: 2008
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Don McKellar, baseado em livro de José Saramago
www.ensaiosobreacegueirafilme.com.br

23 janeiro, 2009

Roseiral




Um Índio – Caetano Veloso
“Virá impávido que nem Muhamed Ali/ virá que eu vi apaixonadamente como Peri /virá que eu vi tranqüilo e infalível como Bruce Lee /virá que eu vi o axé do afoxé, Filhos de Gandhi virá .”


O Guardador de Rebanhos (VIII) – Fernando Pessoa
“Esta é a história do meu Menino Jesus.Por que razão que se perceba Não há-de ser ela mais verdadeira Que tudo quanto os filósofos pensam E tudo quanto as religiões ensinam?”


Perdoando Deus – Clarice Lispector
“Como amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse.”


No Meio do Caminho – Carlos Drummond de Andrade
“Nunca me esquecerei desse acontecimentona vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminhotinha uma pedra.”


Pequeno poema didático – Mário Quintana
“A vida é indivisível. Mesmo A que se julga mais dispersa E pertence a um eterno diálogo A mais inconseqüente conversa.”


Autopsicografia – Fernando Pessoa
“E os que lêem o que escreve,Na dor lida sentem bem,Não as duas que ele teve,Mas só a que eles não têm.”


Retrato – Cecília Meireles
“Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil:- Em que espelho ficou perdidaa minha face?”


Use Filtro Solar – Mary Schmich
“Tenham cuidado com as pessoas que dão conselhos, mas sejam pacientes com elas. Conselho é uma forma de nostalgia. Dar conselhos é uma forma de resgatar o passado da lata do lixo, limpá-lo, esconder as partes feias e reciclá-lo por um preço maior do que realmente vale.”



Cartas de amor (trecho) – Fernando Pessoa
“Mas, afinal,Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas.
... embora na vida adulta sigam outras afeições, conservam num escaninho de alma, a memória do seu amor antigo e inútil."


Sonetos 05, 30 e 80 – Luís deCamões

“Amor é fogo que arde sem se ver.”

“Alma minha gentil, que te partiste.”

“Sete anos de pastor Jacob servia.”


Amor – Clarice Lispector

“Amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter inclusive amorÉ a desilusão do que se pensava que era amor.”


Amor Feinho – Adélia Prado

“Amor feinho não olha um pro outro.Uma vez encontrado, é igual fé,não teologa mais.”


Amor, Meu Grande Amor – Ângela Rô Rô
“Que tudo o que ofereçoÉ meu calor, meu endereço A vida do teu filho Desde o fim até o começo.”


Tanto Mar – Chico Buarque
“Sei que há léguas a nos separar Tanto mar, tanto mar Sei também quanto é preciso, pá Navegar, navegar.”

Mar Português – Fernando Pessoa
“Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor.Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.”

O Navio Negreiro – Castro Alves ”Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus...Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?...Astros! noite! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!...”


Erro de Português – Oswald de Andrade
"Quando o português chegou/ Debaixo de uma bruta chuva/Vestiu o índio/ Que pena! Fosse uma manhã de sol /O índio tinha despido /O português.”


A Flor e a Náusea – Carlos Drummond de Andrade
“Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.”

Credo – Milton Nascimento e Fernando Brant
”E acorda novo, forte, alegre, cheio de paixãoVamos caminhando de mãos dadas com a alma novaViver semeando a liberdade em cada coraçãoTenha fé em nosso povo que ele acordaTenha fé em nosso povo que ele assusta.”




Procura da Poesia – Carlos Drummond de Andrade
“Chega mais perto e contempla as palavras.Cada umatem mil faces secretas sob a face neutrae te pergunta, sem interesse pela resposta,pobre ou terrível, que lhe deres:Trouxeste a chave?”


Ser Poeta – Florbela Espanca
“Ser poeta é ser mais alto, é ser maiorDo que os homens! Morder como quem beija!
... É ter fome, é ter sede de Infinito!”

Sangue Latino – João Ricardo e Paulinho Mendonça

“Jurei mentiras /E sigo sozinho /Assumo os pecados /Os ventos do norte/Não movem moinhos/E o que me resta/É só um gemido.”


Poética – Manuel Bandeira
“Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador.”


Morte e Vida Severina (trecho) – João Cabral de Melo Neto

“É uma cova grande pra teu defunto parco Porém mais que no mundo te sentirás largo É uma cova grande pra tua carne pouca Mas a terra dada, não se abre a boca.”
Cartas de meu avô – Manuel Bandeira
“O meu semblante está enxuto.Mas a alma, em gotas mansas,Chora, abismada no luto Das minhas desesperanças...”



Versos Íntimos – Augusto dos Anjos
“Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.”

A Alma Humana – Fernando Pessoa

“Mas um poço sinistro, cheio de ecos vagos, habitado por vidas ignóbeis, viscosidades sem vida, lesmas sem ser. Ranho da subjetividade.”

(Coletânea de Poesia num CD - Luciana Feijó e Kleber da Cruz)

18 janeiro, 2009

O jogo da Amarelinha - Capítulo 07

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Júlio Cortázar


Sobre o autor



Belga de pais argentinos, Cortázar passou a maior parte de sua infância na Argentina. Desde a infância tinha gosto pelas letras, tendo escrito o seu primeiro livro aos nove anos. Formou-se em Letras, em 1935, atuando como professor de Literatura posteriormente.

Julio Cortázar é considerado um dos mestres de seu tempo, um dos autores mais originais, sua obra consiste em narrativas curtas. Seu livro mais conhecido é O Jogo da Amarelinha, de 63, que permite várias leituras orientadas pelo próprio autor - pode-se seguir os capítulos página por página ou seguir a ordem de capítulos sugerida pelo autor. Cortázar inspirou o cineasta Michelangelo Antonioni, no filme Blow-up (Depois daquele beijo).

http://www.juliocortazar.com.ar/

27 junho, 2007

TRIANON

"São Paulo é uma cidade que lhe agrada muito - aquela combinação abstrata de linhas e formas infinitas quadriculando o mundo inteiro e fazendo dele uma obra tão brutalmente humana que não há fissura por onde a natureza possa entrar. Um mundo de cabeças se movendo; todos habitam um mapa, não um espaço."

Cristovão Tezza, O Filho Eterno

12 maio, 2007

A outra voz - Octavio Paz

"O mercado é justo. Talvez. Mas é cego e surdo,
não ama a literatura nem o risco, não sabe nem
pode escolher. Sua censura não é ideológica:
não tem idéias. Sabe de preços, não de valores."
Octavio Paz

Paz encanta, é tão afetuoso, humilde, inteligente e autêntico!


Sobre o autor:

Ganhador do Nobel em 90, Octavio Paz nasceu no México em 1914. Encorajado por Pablo Neruda, Paz começou sua carreira literária ainda adolescente, publicando seu primeiro livro de poemas, Luna Silvestre, em 1933.
Ainda jovem, Octavio Paz passou pelos Estados Unidos e Espanha, quando foi influenciado pelos movimentos Modernista e Surrealista. Seguiu carreira diplomática e morou por 6 anos na Índia como embaixador do México, deixando o cargo como forma d e protesto ao governo.
Publicou mais de vinte livros de poesia e incontáveis ensaios engajados - culturais , históricos e políticos, além de teorias literárias, num nível de originalidade e erudição que é incomparável.

http://nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1990/

10 abril, 2006

The Great Gatsby




Sim, tem todo aquele luxo e futilidade dispensáveis... Geração Perdida... Mas Jay Gatsby é um romântico das antigas - e é isso que Great Gatsby significa para mim, algo verdadeiro em tempos de eloquências materiais...


"Sorriu compreensivamente - muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que têm em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos com que a gente talvez depare quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava - ou parecia encarar - todo o mundo eterno, e que depois se concentrava na gente com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente queria ser compreendido, que acreditava na gente como a gente gostaria de acreditar, assegurando-nos que tinha da gente exatamente a impressão que a gente, na melhor das hipóteses, esperava causar."

As grandes festas cheias de glamour oferecidas por Gatsby, eram muito animadas, que tal um pouquinho de jazz para entrar no clima?
Sobre o autor:

Um dos escritores da chamada "Geração Perdida", Francis Scott Fitzgerald, 1896, é considerado um dos maiores escritores americanos do século XX. Suas histórias, reunidas sob o título Contos da Era do Jazz, refletiam o estado de espírito da sociedade nos Estados Unidos.

Fitzgerald começou a carreira literária em 1920, com o romance This Side of Paradise, que abriu espaço para sua publicação seguinte The Beautiful and Damned.
Mudou-se para a França, após a internação de sua esposa num hospício, onde concluiu o terceiro e mais famoso de seus romances, The Great Gatsby,1925. Em 1934 publicou Tender is the Night, romance que o autor considerava sua melhor obra.

Confira também a bela filmagem de O Grande Gatsby, de Jack Clayton, com Robert Redford e Mia Farrow.