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29 janeiro, 2010

J. D. Salinger - para relembrar

Alguns livros tem o impacto de nos marcar por muito tempo, às vezes, mesmo que meio escondido, você sabe daquele sentimento-vibração por certas obras. Foi assim que The Catcher in the Rye ficou em mim. Ontem, ao ouvir sobre a morte de Salinger, aos 91 anos, corri para meus textos para reler essa resenha que fiz há alguns anos. Logo, deixo por aqui minhas impressões desse livro espetacular:


O Apanhador no Campo de Centeio
Medo, insegurança, pureza, conflito e, sobretudo juventude. Particularidades do comportamento humano em um momento único na vida de todos os indivíduos. Esse foi o recorte escolhido pelo nova-iorquino Jerome David Salinger ao retratar Holden Caulfield – um adolescente de dezessete anos à beira de um ataque de nervos.O impactante romance “O Apanhador no Campo de Centeio” publicado no início dos anos 50, se por um lado celebrado como a bíblia da juventude, também causou polêmica por parte de críticos que não o consideraram uma obra literária de importância – por sua linguagem jovial recheada de gírias e palavrões que fazem parte da realidade da rapaziada. Controvérsias à parte, o fato é que Salinger deu voz a quem não tinha vez: o jovem, em plena geração pós-segunda guerra. Ninguém havia escrito sobre a juventude de tal forma, ou melhor, havia descrito a juventude – suas dúvidas, maluquices, receios, inconformismos, enfim, o autor plantou ali a semente da rebeldia que viria a se fortalecer ainda mais com a geração beatnik, poucos anos após a publicação de “THE CATCHER IN THE RYE”.Salinger foi inovador ao chegar tão perto da existência e confusão de ser jovem, ao criar sua personagem – nosso ANTI-HERÓI – Holden Caulfield; um cara nada confiável, reprovado na escola, contestador, mentiroso, inteligente, sensível e muito cínico. Holden conquistou gerações – até hoje, em todo o mundo. Seu criador, no entanto, se tornou um mistério, com todo o sucesso de sua obra, Salinger fugiu dos holofotes, refugiando-se da sociedade, não dá entrevistas e muito menos permite ser fotografado, no duro.Criador e criatura estão muito próximos, Holden nos conta em alguns trechos de seu desejo de ir para o Oeste, morar numa cabana, isolar-se – possível influência de Thoreau e Whitman – como fez seu inventor. Além disso, o inquieto Holden detesta cinema, assim como J. D. Salinger que até hoje não autorizou a adaptação para o cinema de sua maior criação. Tem mais, o autor serviu o exército na Segunda Grande Guerra – um breve comentário de Holden acerca de “Adeus às Armas” de Ernest Hemingway, livro que trata entre outras coisas, da Guerra Espanhola: “tinha no livro um sujeito chamado Tenente Henry que era considerado um bom sujeito e tudo. Não sei como o D.B. podia detestar tanto o exército e a guerra e tudo, e ao mesmo tempo gostar de um cretino daqueles”.Em uma leitura superficial, pode-se resumir o romance como a passagem de um final de semana da vida de um jovem: não se sabe especificamente onde ele se encontra, mas sabemos que está sob tratamento mental em alguma instituição. A história de Holden é narrada a partir de um sábado na escola Pencey, na qual foi reprovado em algumas matérias e expulso. A caminho de casa, antes do tempo e sem o conhecimento de seus pais, Holden nos conta das pessoas que procurou, das que encontrou, dos novos lugares, sempre contando histórias, mentiras e criticando a todos, até encontrar-se com sua irmã mais nova Phoebe, em Nova Iorque.Ingenuidade do leitor que não percebe a grande trajetória em questão. Holden Caulfield não é apenas um adolescente chato, mal resolvido e mal humorado. Ele é a passagem da infância para o mundo adulto e suas responsabilidades. E esse é o seu maior MEDO. Para o jovem rapaz, os adultos são falsos e mentirosos, perderam a inocência e a honestidade que as crianças têm. Holden diz que os adultos são falsos, ok, mas não percebe que ele mesmo está o tempo todo criticando e mentindo para as pessoas – é a forma que encontrou para se proteger, por se achar único, o que justifica o uso diário de seu chapéu de caça.Numa tentativa fantasiosa para se justificar o garoto Caulfield inventa dois mundos: o da hipocrisia adulta e o da inocência infantil, querendo de qualquer forma permanecer puro – mesmo já corrompido por seu cinismo – essa fantasia fica clara quando Holden conta à Phoebe sobre sua vontade de ser o apanhador no campo de centeio: “fico imaginando uma porção de garotinhos brincando no campo de centeio. Milhares de garotinhos e ninguém por perto. Eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê eu tenho que fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo”. O diálogo entre os irmãos no qual Holden conta de seu desejo imaginário é a melhor sacada do livro, o título – inspirado num verso do poeta Robert Burns – e porque não dizer poético, é a metáfora desta transição tão temida por Caulfield. Ele estaria ali evitando que a inocência fosse perdida num abismo. Perder a pureza é tão ruim quanto cair num abismo, não tem volta.

08 novembro, 2009

Pílula da Felicidade

Por esses dias ouvi de um colega: A Humanidade é triste e está sempre na expectativa da felicidade.
Seria essa infelicidade global um tipo de epidemia, o mau uso da tecnologia? Ou seria natural do homem?
Será a felicidade uma pílula de efeito momentâneo, será ainda possível contrabandiá-la, fazer estoques, ou ainda conservá-las no congelador?
Isso me faz lembrar Huxley mas, enfim, o que você faz com a sua felicidade?



*Cheshire cat, retirada do Google

06 julho, 2009

FLIP 2009 - sábado


Acordamos e ficamos surpresos com o bom tempo na cidade, a previsão era de chuva, muita chuva. Aliás, uma das coisas engraçadas dessa viagem foi o guarda roupa invernal dos flipeiros. Não foi muito diferente comigo. Mas sabendo que estaria no Rio de Janeiro, levei sandálias e camisetas além dos casacos e cachecóis, uma mala tipicamente feminina, com quase todas as opções... A manhã era ideal para se caminhar, então seguimos pela beira mar, na Rua da Praia, conhecemos a Igreja de Nossa Senhora das Dores que acabara de ser aberta depois de ficar oito anos fechada para reformas. Fiz três pedidos.


As construções em frente ao mar são ainda mais bonitas e maiores, como nessa foto ao lado, um casarão muito bem conservado, com ar-condicionado, um quintal cheio de plantas e com direito a cachorro!

As portas das casas no centro histórico são mais altas, e tem alguns degraus para o piso térreo, para evitar a entrada da água.

Caminhamos até o cais, por ali nem sinal de flipeiros, todos estavam por perto das tendas, assim ficou fácil perceber a tranquilidade da vida local: muitos pescadores e artesãos.

Voltando ao centrinho, as ruas ainda vazias, cruzamos com o autor Cristovão Tezza fotografando a cidade. Estar em Paraty em plena FLIP é inesquecível - faz bem aos olhos pelas belas construções, as águas da baía cheia de barcos coloridos, e simplesmente por cruzar com vários escritores andando pelas ruas, bem naturalmente.

Sentamos para um café na livraria da cidade - a única no centro histórico. E depois de ver Cristovão Tezza passar, o Marcelo Tas apareceu para gravar uma entrevista para o canal ESPN ali mesmo na livraria, como coordenador da FLIP ele falou sobre a FLIP ZONA, um dos vários ambientes da Festa de Literatura Internacional, só que com maior destaque para os jovens. Tas afirmou que nas últimas edições do evento, a gurizada ficava um tanto deslocada da festa, os adultos frequentavam as tendas do telão e dos autores, as crianças na flipinha e nada direcionado ao público mais jovem. Na FLIP ZONA foram exibidos diversos filmes e documentários, muita coisa criada pelos jovens no local, utilizando a câmera de seus celulares.

SÁBADO É DIA DE FLIPINHA

A Praça da Matriz foi uma atração a parte. Estava toda decorada com bonecos tirados das muitas poesias de Bandeira. Havia também "pés de livros", assim a molecada que passava por ali, podia sentar debaixo de uma árvore e fazer uma leitura. Era muitos livros pendurados. Também estavam por ali algumas mocinhas de voz suave e doce, colocavam um tubo colorido em nossos ouvidos e recitavam versos de Manuel Bandeira. Era tudo mágico, mesmo para os adultos que lotaram a praça no sábado. Algumas fotos:

Café com pão
Café com pão
Café com pão
Virgem Maria que foi isto maquinista?
Agora sim
Café com pão
Agora sim
Café com pão
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
...


Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!


Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor

Imagino Irene entrando no céu:

- Licença, meu branco!

E São Pedro Bonacheirão:

- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.






E na tenda da Flipinha: Ruth Rocha e Bia Hetzel!

Foi o único bate-papo que assisti na tenda da flipinha e valeu muuuuito a pena! Ruth Rocha está completando 40 anos de carreira, mais de 130 livros publicados, em muitas línguas. Autora do clássico - e por que não um clássico?! - Macelo, Marmelo, Martelo, mediada pela também autora de livros infantis Bia Hetzel, falou sobre começo de sua carreira, aos 38 anos, comentou quais são seus livros favoritos e respondeu a muitas perguntas das crianças maravilhadas com o tom doce de vovó de Ruth Rocha.

Ruth Rocha e Bia Hetzel respondendo a perguntas das crianças

Á noite, a estrela mais brilhante da festa: António Lobo Antunes


A mesa “Escrever é Preciso”, com António Lobo Antunes e Humberto Werneck, começou quase em silêncio. Um silêncio curioso, desses que fazem a plateia inclinar o corpo para a frente, esperando que algo aconteça. Lobo Antunes demorou a falar. Parecia medir o tempo, observar o ambiente, como quem ainda chega a um lugar.

Quando finalmente começou, vieram os aplausos — e depois outros, e mais alguns. Cada frase parecia cair na sala como uma pequena revelação.

Para mim, muito do que ele dizia era novidade. Descobri, por exemplo, a relação íntima que o autor sente com o Brasil. Um de seus avôs viveu por aqui, e Lobo Antunes contou que o Brasil não é, para ele, apenas um país. “O Brasil é um cheiro”, disse. “É a comida, são as maneiras de viver e falar.” O Brasil, segundo ele, é uma coisa íntima.

Falou também da poesia brasileira com a familiaridade de quem a habita: Drummond, Murilo Mendes, João Cabral. Citou ainda Paulo Mendes Campos, poeta mineiro que, segundo ele, continua pouco conhecido até mesmo entre nós.

Disse algo que ficou ressoando em mim: a poesia ensina mais do que a prosa. Quando lê prosa, contou, sente vontade de corrigir o texto a todo momento. E corrigir, para ele, é quase um segundo trabalho. “É preciso criar com a cabeça e corrigir com as mãos”, explicou.

Para quem quer escrever, deixou uma imagem inesperada: assistir a um jogo de Garrincha. “É preciso pensar como um Didi”, disse, “e ter a habilidade de um Garrincha”.

Falando sobre o trabalho do escritor, afirmou que todo livro é uma metáfora — e também uma reflexão profunda sobre a própria arte de escrever. E deu um conselho simples e radical: para escrever bem, é preciso cortar. Cortar advérbios, cortar adjetivos. Cortar tudo o que for excesso.

Mas talvez o momento mais bonito tenha vindo com uma lembrança. Lobo Antunes contou de uma temporada na França com Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro. Quatro da manhã, e Ubaldo na cozinha preparando uma feijoada. Alguém perguntou se ele ainda escrevia. Ubaldo respondeu, com humor:
“Sim. Meu pseudônimo é António Lobo Antunes.”

Saí da mesa com a sensação de ter estado em outro ritmo de tempo. Foi, para mim, a melhor conversa da FLIP — a mais verdadeira, a mais tocante, a mais bonita.

Parecia que todos nós estávamos sendo embalados pela voz de Lobo Antunes, como se a noite tivesse entrado em balanço.
e ele só acendeu o cigarro quando chegou na mesa dos autógrafos...

FLIP 2009 - sexta-feira

Mal começou o dia e fomos apressados assistir a mesa "Evocação de um poeta", de pé mesmo, do lado de fora da tenda do telão. Na mesa, os três novos poetas brasileiros, Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz e Angélica Freitas debatiam a atualidade do poeta, o momento misterioso ou ainda rotineiro da criação, suas influências e fizeram leituras belíssimas de poemas como "Porquinho-da-índia", "Namorados", "Maçã" e "Evocação do Recife", bonitas escolhas para evocar a simplicidade do poeta homenageado, Manuel Bandeira. Em sua última fala, Angélica Freitas, leu "Belo Belo"de Bandeira:
Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdad e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero

Leia aqui a entrevista com a poeta Angélica Freitas na revista Vila Cultural.


Seguindo para o centro histórico, passeando pelas ruas de calçamento "pé-de-moleque" fui percebendo a FLIP, a cidade toda em festa, num outro ritmo, palavras, música, cores e poesia. Algo como visitar o Sítio do Pica-Pau Amarelo quando criança.



Compartilhar, criar, trocar. Por todos os lados novos artistas tentando vender seu peixe. Fantasiados, simpáticos ou mesmo declamando versos, estavam mesmo tentando. Ganhamos muita coisa. Como outros que estavam por ali, o casal Macambira e Queridinha, em sua primeira FLIP, escritores de Cordel vindos de Esperança - PB, circularam por todos os lados, todos os dias e eu não podia deixar de trazer alguns exemplares.


De estômago forrado, fomos passear de charrete, a promessa era a de saber mais da história de Paraty, por quem mora lá. O moço falou sobre a fundação da cidade (entre 1540 e 1560), mostrou as casas dos famosos, e entre outras coisas, explicou algo interessante e engenhoso a cerca da construção do centro histórico, que está abaixo do nível do mar, assim, quando a maré subia, lavava as ruas e levava com ela toda a sujeira, por não haver rede de esgoto na época. Hoje as águas ainda invadem o centrinho até certo ponto.




Também foi curioso aprender a origem de algumas expressões como "sem eira nem beira" e de "feito nas coxas" - o telhados das casas eram montados por telhas confeccionadas nas coxas das mulatas, ficando então irregulares - daí a expressão "feito nas coxas" para exemplificar algo mal feito. Além disso, os telhados poderiam ter ou não um acabamento, eira, beira e tribeira. Quanto mais "eiras", mais nobre era a família. Quando um sujeito perdia seus bens, perdia também suas "eiras", ficando sem eira nem beira.















No meio da tarde, andando pela Samuel da Costa, encontramos um grupo - não tenho certeza se local, provavelmente sim, numa batucada de MARACATU! Nada como uma batucada para sacudir o corpo e as ideias, dando mais energia para o resto do dia.





Fim de tarde chegou: Cristovão Tezza e o mexicano Mario Bellatin debatem "O eu profundo e os outros eus" - Tezza publicou em 2007 O Filho Eterno , um misto de ficção e autobiografia da relação de um jovem pai com o filho que tem síndrome de down, já escrevi um pouco sobre o livro aqui. Para o brasileiro , a ficção é um modo de compreensão do mundo e o fato biográfico é mais um elemento da realidade. Ainda citou Paul Auster: "uma vida só existe se se narra".

Já Bellatin afirma não se inspirar em sua vida para criar suas personagens - estas tem deformações congênitas, bem como o autor que nasceu sem o antebraço - apareceu na tenda dos autores com uma prótese em formato de pênis. O autor disse que procura se distanciar do que escreve para se tornar leitor dele mesmo, numa tentativa de desaparecer como autor.
Ambos autores leram trechos de suas novas obras.




A Editora Record distribuiu um trecho inédito do novo livro de Cristovão Tezza, Um Erro Emocional, leia aqui.


O LEITE DERRAMADO AZEDOU


Sexta-feira, 19 horas. A mesa "Sequências brasileiras" foi em disparado a mais concorrida, Milton Hatoum e Chico Buarque - ingressos esgotados na primeira hora ds vendas. Claro que eu também não consegui. Mas paciência, ficarei contente em receber os autógrafos dos autores em meus livros! O debate começou e eu já estava lá, a primeira na fila dos autógrafos. A cada minuto chegava mais e mais gente. Parecia que o debate não ia acabar nunca. Eles esticaram - e muito - o papo, mas dali não conseguia ouvir uma palavra sequer.
E a equipe da FLIP começou assim: - Não sabemos se ele (Chico) vem, não tem nada confirmado. Outra fala: - Não formem fila. - E ainda: - Não há uma fila oficial. - Quando uma multidão seguia crescendo.
Depois de algum tempo: - Ele virá, mas só irá autografar 100 livros, vamos distribuir senhas. - E eu: - E o Hatoum? E o Hatoum??
Sim, é claro que Chico Buarque e seu belo par de olhos causam todo esse frenesi e histeria, mas gente, e o Miltom Hatoum?! - Sim, ele virá também, está confirmado.
A próxima instrução dada a nós foi assim: - Ele só autografará um livro por pessoa, guardem os outros, vamos lá, pessoal, um livro só nas mãos.
A moça olhou para mim, um tanto arisca: - Pode guardar esses livros, só um por pessoa.
- Mas esses são do Hatoum, minha senhora!
O último comando foi assim: - Não adianta colocar seus nomes em papeis, ele só irá assinar o nome dele.
Ai ai. Cansei, cansei mesmo, coisa mais irritante - vou mandar essa historinha verdadeira para a Fernanda Young. Nada é mais irritante do que esperar por duas horas por alguém que não está a fim. Melhor seria não aparecer.
A mesa terminou, fico na ponta dos pés e vejo uma correria, uma GALERA chegando com tudo. O segurança ao meu lado, ainda mais alto que eu (meço 1,80m) estava tenso, bem tenso. E mais seguranças foram chegando. Medo do empurra-empurra. Eu só queria sair logo dali.
O Chico chegou primeiro, a maior berraria histérica de meninos e meninas. Mal aplaudiram o Hatoum que chegou logo depois. Eu ainda esperei o Chico Buarque autografar uma pilha de livros da equipe da FLIP. Pronto, enfim liberada:
- Chico, é para minha filha, Clarice. - E ele rabiscou qualquer coisa. Eu: - Obrigada.
Sigo em direção ao Milton Hatoum, toda encabulada: - É um prazer estar aqui (dãh). Ele sorriu, viu meu nome e o do Kleber: - Kleber? - E eu: - Meu marido. - Fez uma dedicatória.
No segundo volume que entreguei a ele havia anotações logo na primeira página, ele me olhou com cara de interrogação: - Somos estudantes de literatura e professores também. - Agora senti firmeza, Luciana! risos. E mais uma dedicatória carinhosa. Ele ainda estendeu a mão e eu atrapalhada, demorei um pouco a corresponder.
Preciso dizer mais alguma coisa?















a primeiríssima da fila






Milton Hatoum autografando meus livros

FLIP 2009 - quinta-feira

Chegamos a Paraty na hora do almoço, tempo nublado e aquela fome de mais de três horas de viagem. Parando por perto da Rua Domingos Gonçalves de Abreu avistamos alguns restaurantes e fomos passando de porta em porta - sempre aquele ar de botequim carioca que eu amo! Mas foi um certo Margarida Café que nos encantou pelo ambiente charmoso, colorido e musical. O almoço foi perfeito, mas "salgado".














Aproveitando o momento AINDA
sem chuva, levamos a pequena
para ver o mar, pela primeira vez,
na Praia do Jabaquara. E ela não
hesitou em caminhar até a água
e a brincar de correr atrás de recuo
da maré.







No começo da noite, seguimos para a mesa do neodarwinista Richard Dawkins, biólogo inglês que lotou as tendas dos autores e do telão. A mesa mais frequentada por jovens das quais estive. O professor aposentado tem se mostrado um sério defensor do ateísmo, e busca apresentar ao público uma forma mais simples de se entender a Teoria da Evolução. Parecia mesmo tentador.
A associação que o autor fez entre The Canterbury Tales e sua perspectiva de uma romaria "para trás", dos povos em busca da origem da vida foi bastante bacana. Mas me parece que sua ideia de deus foi um tanto materialista e superficial, talvez uma maneira de nos fazer curiosos e procurar seus livros. Acho que irei fazê-lo. Esperava algo mais polêmico, afinal o Brasil é tããão católico...
Para quem ficou curioso, seguem alguns trechos inéditos do livro "O Maior Espetáculo da Terra" distribuído na FLIP pela Companhia das Letras.

26 junho, 2009

Ouvir essa música é como abrir uma compota da minha vó, traz lembranças, cheiro e nostalgia. E isso importa. São as grandes coisas que nos marcam. E ele era grande. Como artista era completo. Como gênio, vivia em extremos. Assim como todo grande talento, o mundo não era o bastante.

* os vídeos originais estão suspensos para incorporação em outros sites...

22 junho, 2009

Purpurina de Rua

rua
movimento
sol
concreto
vento
paulistana
conhecido
sorriso
frio
calor
encontro
mãos
beijo
nostalgia
café
noite
adeus
faróis
chuva
brilho
purpurina
É antiguinho, de 2004...

13 junho, 2009

Santo Antônio é o mais popular

Hoje, 13 de junho é dia de festa, dia de Santo Antônio, o santo mais popular do Brasil. O monge franciscano conhecido como Santo Antônio de Pádua ou de Lisboa caiu nas graças do povo, é conhecido por ser o Padroeiro dos pobres, Santo casamenteiro, sendo invocado também para se achar objetos perdidos. A intimidade dos fiéis é tanta que, quando ele não corresponde aos pedidos, os mesmos costumam castigá-lo, colocando sua imagem de cabeça para baixo ou ainda retirando o menino Jesus de seus braços. Uma das simpatias mais conhecidas em todo o Brasil é comer pão diante da imagem de Santo Antônio, pensando bastante na pessoa amada, assim a moça desencalha e acaba casando. Um outro atributo de Santo Antônio é o da abundância: os devotos recebem o pão distribuído pelas igrejas no dia de Santo Antônio e o colocam num pote de guardar arroz, é garantia de fartura o ano todo, e afirmam: o pão não mofa!
Veja aqui algumas simpatias.
* oratório em madeira, tinta plástica, tecido, fitas e renda.

25 abril, 2009

Dilema carnal

Derrubem o bacon.... A gripe suína está chegando !!!!! E eu ainda não estou curada da minha gripe aviária. Será que volto a ser vegetariana?!!!

12 março, 2009

Dia do bibliotecário

Depósito de Livros
Luzes do Silêncio
Legados Humanos
Diálogos Poéticos
Palavras-coisas
Pequenas Encenações
Jogos da Linguagem
Versos Tecidos
Dúplices Palavras
Sentimentos Atemporais
Observatório da Freguesia
Amálgama do Mundo
Imagem Romântica

09 março, 2009

uma idéia infantil

quando criança, morando no rio de janeiro, imaginava que todos aqueles morros eram monstros de pedra enormes, deitados, adormecidos, milenares protetores da cidade.
um
dia
iriam
levantar.
*rio de janeiro, 2007

01 março, 2009

feliz rio!



notório
simplório
inspiratório
renovatório
relicário
delírio
diário
unitário abecedário casório imaginário
confessionário
incendiário
colírio
território
transitório
aniversário
sorrio
rio.


* pão de açúcar, 2007

22 fevereiro, 2009

carnaval

a festa da carne
a carne na brasa
carne em paetê
carne salgada
carne nos lençóis

ou ainda espremida contra o muro.
e os de espírito cativo, encarnados,
passaram a madrugada louvando.

fantasia dionisíaca
que é brasil
brincadeira de esconder,
fétida fornada.
santa carnificação.

16 fevereiro, 2009

As Feijós


Na família somos muitas mulheres. Somos a força e a beleza: maternais, alegres, companheiras, justas, hábeis, loucas, briguentas, amigas. Somos, filhas, mães, tias, avós, bisas, primas, netas, sobrinhas, madrinhas e agregadas. As Feijós têm os olhos brilhantes de quem está sempre em busca do novo, do velho e do bem. E a família está a crescer, e como sempre, com novas meninas.

28 janeiro, 2009

Marie Antoinette (1755-1793)


Havia uma lembrança viva de Maria Antonieta no Palácio de Versailles: uma árvore plantada por ela, para nos lembrar da perturbação emocional e a dimensão trágica de sua vida. Nesses dias de chuvas assustadoras, uma tempestade arrancou suas raízes do solo. Parece-me que o ciclo da rainha se fechou, e é a natureza quem o fez. Deixo, então, uma reflexão: o que resta de Maria Antonieta na mulher moderna?

03 dezembro, 2006

"Socorro" - A. Antunes


"Tal é o fim de todo o condicionamento: fazer
as pessoas apreciarem o destino social a que não podem escapar."
(Aldous Huxley)
25 de Janeiro - Alguma Rua que nos dê sentido
começa
depressa.
- não impeça!
atravessa,
atravessa,
vai nessa!
travessas
mais travessas.
acessa:
nada cessa.
ingressa.
apressa.
- apressa!
- não interessa,
arremessa!
- não interessa,
meça
às avessas.
remessas
e mais remessas
compressas.
regressa
com pressa
à beça!
confessa:
que pressa
é essa?

05 novembro, 2006

Vende-se



Descia a rua com pressa, passos apertados em sapatos baratos que contrastavam com vitrines de luxo. Entre laços, fitas e dourado, seus olhos buscavam a beleza, talvez aquele casarão antigo, que no imaginário da menina tornava-se palco das histórias mais românticas à moda antiga, claro... A casa com aparência desleixada estava deslocada em meio a tanta modernidade, mas o charme amarelado ainda era por poucos admirado. Márcia sempre se encantava ao se deparar com o casarão, a emoção era a mesma a cada encontro. Dessa vez, notou a placa que indicava uma futura, provavelmente distante, venda. Seu rosto fino de expressão ingênua vibrou ao imaginar como seria viver entre paredes antigas, que guardavam tantos segredos e histórias, em prováveis cômodos imensos, janelas altas e um jardim que teria cor de todas as flores. Foi surpreendida então, quando viu uma senhora um tanto enrugada sentada na varanda, a olhar o movimento. Estava arrumada, um belo vestido, parecia estar esperando por alguém. Elas cumprimentaram-se e a senhora acenou, e os passos de Márcia agora saltitavam na descida. Os dias passaram, a moça retornou, e a placa ainda estava lá, mas dessa vez o portão estava aberto. Márcia parou de frente para a casa. Olhou para um lado e para o outro, não hesitou, entrou com toda vontade, cruzou o jardim seco rapidamente, seu coração batia acelerado. Bateu na porta... Nada. Bateu novamente, e encostou a orelha na porta de madeira. Ouviu passos chegando, lentos e leves, logo a porta foi aberta. A velha senhora maquiada e madame, com certa dificuldade e voz rouca convidou-a para entrar.A sala era escura, e de longe ouvia-se um bolero distante... A mobília era pouca mas de bom gosto, quase toda coberta com lençóis bordados. A velha seguiu para a sala de estar e indicou a cadeira na qual a moça deveria sentar. Márcia sentou-se numa postura omissa e acompanhou o caminhar arrastado da senhora que foi até a cozinha. Seus olhos passaram pela coleção de bonecas de porcelana tão antigas quanto a sua dona, vestidas de modelos impecáveis e pela luz não se via pó algum. A velha madame voltou com uma bandeja, chá completo no melhor estilo inglês. O ambiente cheirava a "casa velha" e foi tomado por um aroma suave e doce.As duas bebiam lentamente, entre um gole e outro se observavam, nada foi dito até então. Márcia sem graça, desviou o olhar, e nas paredes encontrou quadros de molduras grossas e detalhadas, retratavam uma mulher posuda e seca. Em alguns estava acompanhada por dois homens distintos porém tristes. Márcia não conteve-se e perguntou se a senhora foi casada, apenas um balançar de cabeça respondeu-lhe que sim.- Tem filhos?E novamente um balançar de cabeça, desta vez negativo. Constrangida, a moça percebeu que a senhora não era de muitas palavras, e não sabia como iria conversar com ela, além disso, a velha via-a com ressalvas, os olhos percorriam-na severamente, sua ação criticava até mesmo as unhas que estavam mal pintadas.O chá terminou e a moça levantou-se apressadamente, não sentia-se bem em clima tão frio e moribundo. Dirigiu-se até a porta e a senhora agradeceu, aquela voz rouca disse que a casa não está à venda. Márcia com um meio sorriso desapareceu da vista opaca daqueles olhos marcados que completavam o semblante pesado da velha senhora abandonada.

16 setembro, 2006

A FEIRA


Tantas frutas expostas na banca... De muitas cores, formatos e perfumes.As crianças remelentas passam, olham, pedem. Procuram rapidamente por um pedaço suculento. Olhar extenso, desejo intenso, acompanhado de hálito ácido, de quem tem gastrite ou fome mesmo.Os velhos ficam ali por horas, uma verdadeira eternidade, caminham espaçadamente, sentam-se para descansar, suspiram, puxam papo com o primeiro indivíduo que aparece, na sorte de contar suas repetitivas histórias, e poder dizer exatamente qual o verdadeiro sabor de cada fruto.As donas de casa pomposas, munidas de seu grande potencial argumentativo, escolhem, cheiram e pechincham uma caixa da fruta da temporada. Mas não olham nos olhos de ninguém, só querem mais e mais.Os homens escolhem bem, apalpam, comparam, experimentam os sabores diversos. Apreciam cada lasquinha, facilmente cedida, e por eles tão desejada.Diversas pessoas circulam por ali, de muitas cores, formatos e perfumes. E como os frutos de final de feira, apodrecem. Em algum momento algo é perdido, o gosto, o cheiro, a cor. O prazer, a saciedade, a voracidade, o desejo, a busca. Enfim, se torna fétido.

11 julho, 2006

Durou uma xícara de chá

(Janela Desconstruída)



A fumaça ainda estava lá,
e as luzes refletiam no chá,
ela sentada ali no bar
só a observar,
rua cheia, rostos familiares.
Noite clara, solitária,
a acompanhar os movimentos
do rapaz branco-leite
do outro lado da calçada,
seus olhos foscos e testa expressiva,
ali, só tristeza.
Ela se recolheu apertada
e chorou, lágrimas de esperança.
O chá acabou.

25 fevereiro, 2006

Delírios Românticos

Estejam preparados! A seguir presenciaremos o encontro de quatro grandes representantes da geração romântica. Caracterizados pelo exagero, o amor não correspondido, o mal-do-século, o subjetivismo e pela grande influência de Lord Byron. Os poetas encontram-se no século XIX, no Rio de Janeiro, em uma taberna qualquer, numa noite longa de inverno, encontra-se Castro Alves, já consumido pela bebida e tomado por lamentações. O homem atormentado, entre uma taça e outra, chora e procura respostas...
- E que é que fiz Senhor? Não basta inda de dor, Ó Deus terrível?
Bebe mais uma taça.
- Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
Chega Álvares de Azevedo, sóbrio e melancólico, senta-se na mesma mesa e grita:
- Cala-te Castro! És um louco Castro Alves!
CASTRO: És o anjo da morte! O que queres?
ÁLVARES: Vinho! Vinho! Não vês que as taças estão vazias? E também o sabor de um cigarro feiticeiro!
CASTRO: O horizonte sem fim... Por favor, mais vinho!
A taberneira, que é coxa, serve o vinho, enquanto Álvares acende um cigarro enrolado.
ÁLVARES: Bravo! Bravo! - E prossegue olhando para a garrafa de vinho - Os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do amor os borrifa de lava...
CASTRO: Sim, sim... Mulheres... Ela em soluços murmurou-me: adeus!
ÁLVARES: Circunstância agravante, caro Cecéu...
CASTRO: Ela foi-se ao pôr da tarde, os ninhos desabaram... No abandono... Murcharam-se as grinaldas de lianas que tanto me custaram... Ó Senhor! Leve-me contigo!
ÁLVARES: O materialismo é árido como o deserto, é escuro como um túmulo!
CASTRO: Mas que música suave ao longe soa!
Entram Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu, abraçados, alegres e cantando:

"Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais cores,
Nossas flores têm mais vida,
Nossa vida mais amores..."

ÁLVARES: Silêncio, moços! Acabai com essas cantilenas horríveis!
CASTRO: Tens razão, é canto funeral! Que tétricas figuras!
ÁLVARES: Nada de tétrico! O que eles cantam não é real, é um sonho tudo isso!
GONÇALVES: Como amo a luz! O silêncio, e cores, e perfume e vida!
CASIMIRO: Como são belos os dias! Ah! A sombra das bananeiras! Dos laranjais!
ÁLVARES: Calai-vos malditos! O que tomaram?
GONÇALVES: É o desejo de uma pátria melhor!
CASIMIRO: A vida é um hino do amor! O céu sempre lindo! A lua beijando o mar! As ondas beijando a areia! Não seja tão pessimista caro Álvares!
CASTRO: O duelo da treva e do clarão! Um brinde cavalheiros!
Brindam com grande entusiasmo.
GONÇALVES: Mas diga-me rapaz, não acreditas numa pátria melhor?
ÁLVARES: Não, o que eu penso é diverso. É uma grande idéia que talvez nunca se realize.
CASIMIRO: Pois, conte-nos! No que pensas?
ÁLVARES: Anjo e demônio habitam as cavernas de um mesmo cérebro. Não é hora para isso!
GONÇALVES: Sou filho das selvas, nas selvas cresci! Admiro toda essa beleza! As palmeiras, as estrelas, o sabiá!
CASTRO: Liberdade peregrina! E nem tenho a sombra de uma floresta! (Ri)
O silêncio toma conta do ambiente...
CASIMIRO: O mesmo silêncio terrível...
ÁLVARES: É meia-noite. A hora amaldiçoada, dizem que a essa hora vagam espíritos...
CASIMIRO: A noite tem seus mistérios!
ÁLVARES: Esse mundo é monótono a fazer morrer de sono...
GONÇALVES: Aceita um cigarro, triste rapaz?
ÁLVARES: Sim! É belo fumar! O fumo, o vinho, as mulheres! Trazem-me uma alegria momentânea...
CASTRO: ´Stou louco de amores... Onde está Eugênia que não veio ainda?
GONÇALVES: Mas isso amor não é, é delírio.
CASTRO: Nos negros cabelos de moça bonita, formoso enroscava-se o laço de fita... Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
Álvares já embriagado levanta-se e caminha em direção à taberneira, suspirando:
- Amorosa visão, mulher dos sonhos! Amo-te como o vinho e como o sono! Ah! Vem, pálida virgem!
A mulher assustada, some de sua visão. Álvares então segue lamentando:
- Vivo de amores, morrerei sonhando... Eu sou tão infeliz, eu sofro tanto!
GONÇALVES: Tu és valente, bem o sei, confessa!
CASIMIRO: Quem dera que sintas as dores de amores que louco senti!
CASTRO: Eu não sei tua história... Mas que importa?
CASIMIRO: Lábios formosos daquela virgem, um olhar meigo eterno que brilhaste por entre aquelas pestanas aveludadas... Ah mulher! Mulher! Que tão cedo esqueceste o homem que te votou o amor mais ardente de sua alma!
ÁLVARES: Essa dor que a vida devora...
Casimiro descontrolado põe-se a chorar.
CASTRO: Que tens criança? Quero ver-te brilhar!
CASIMIRO: Meu Deus! Que gelo, que frieza aquela! Ai mulher! Tu me mataste! Chamaste-me de criança, Castro minha infância querida! Que saudades!
GONÇALVES: Dois corações que juntos batem, que juntos vivem, se os separam, morrem. Basta, irei a Portugal. Dos mares à amplidão!
CASTRO: Não partas não! Aqui todos te querem! O que busca além dos horizontes?
GONÇALVES: Com quanto amor eu amo Ana Amélia! E esta oculta paixão, na dor aumenta intérprete nas lágrimas... Enganei-me... Horrendo caos... Necessito de novo ares.
CASTRO: A Europa é sempre Europa, a gloriosa!
Casimiro acompanha Gonçalves na saída da taberna.
CASTRO: Que noite fria! E é tarde! É muito tarde! Oh! Eu quero viver beber perfumes... No seio da mulher há tanto aroma...
ÁLVARES: Amei muito uma moça, parece-me então que se aquela mulher que me faz estremecer assim soltasse sua roupa de veludo e me deixasse pôr os lábios sobre seu seio um momento, eu morreria num desmaio de prazer!
CASTRO: Uma chuva de pétalas no seio! - Suspira. -
ÁLVARES: Ah! Se eu morresse amanhã! Há poucos dias meu cavalo arrepiou-se, pulou e deu-me um tombo...
Castro dá gargalhadas.
ÁLVARES: Não rias de mim! Não me sinto bem... Ó minha mãe, pobre coitada que por minha tristeza se definhas. Passei ontem a noite junto dela.
CASTRO: Morrer... Quando este mundo é um paraíso!
ÁLVARES: Não escuta a gritar as caveiras?
CASTRO: Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
ÁLVARES: Não derrame por mim nenhuma lágrima...
Álvares cai sobre a mesa num sono profundo e eterno, para ele havia chegado a grande noite. Castro Alves assustado grita:
- Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me se é loucura!
Passados alguns anos, Castro retorna à mesma taberna e lá recebe uma correspondência de Gonçalves Dias, nela o amigo conta do falecimento de Casimiro de Abreu, vítima do mal-do-século e envia-lhe sua "Canção do Exílio", demonstrando a vontade de retornar à sua pátria. Tal fim não se realizou, Gonçalves faleceu em um naufrágio.
Castro Alves murmura:
- Ó sono! Unge-me as pálpebras.