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16 julho, 2009

O casal Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna na FLIP



06 julho, 2009

FLIP 2009 - sábado


Acordamos e ficamos surpresos com o bom tempo na cidade, a previsão era de chuva, muita chuva. Aliás, uma das coisas engraçadas dessa viagem foi o guarda roupa invernal dos flipeiros. Não foi muito diferente comigo. Mas sabendo que estaria no Rio de Janeiro, levei sandálias e camisetas além dos casacos e cachecóis, uma mala tipicamente feminina, com quase todas as opções... A manhã era ideal para se caminhar, então seguimos pela beira mar, na Rua da Praia, conhecemos a Igreja de Nossa Senhora das Dores que acabara de ser aberta depois de ficar oito anos fechada para reformas. Fiz três pedidos.


As construções em frente ao mar são ainda mais bonitas e maiores, como nessa foto ao lado, um casarão muito bem conservado, com ar-condicionado, um quintal cheio de plantas e com direito a cachorro!

As portas das casas no centro histórico são mais altas, e tem alguns degraus para o piso térreo, para evitar a entrada da água.

Caminhamos até o cais, por ali nem sinal de flipeiros, todos estavam por perto das tendas, assim ficou fácil perceber a tranquilidade da vida local: muitos pescadores e artesãos.

Voltando ao centrinho, as ruas ainda vazias, cruzamos com o autor Cristovão Tezza fotografando a cidade. Estar em Paraty em plena FLIP é inesquecível - faz bem aos olhos pelas belas construções, as águas da baía cheia de barcos coloridos, e simplesmente por cruzar com vários escritores andando pelas ruas, bem naturalmente.

Sentamos para um café na livraria da cidade - a única no centro histórico. E depois de ver Cristovão Tezza passar, o Marcelo Tas apareceu para gravar uma entrevista para o canal ESPN ali mesmo na livraria, como coordenador da FLIP ele falou sobre a FLIP ZONA, um dos vários ambientes da Festa de Literatura Internacional, só que com maior destaque para os jovens. Tas afirmou que nas últimas edições do evento, a gurizada ficava um tanto deslocada da festa, os adultos frequentavam as tendas do telão e dos autores, as crianças na flipinha e nada direcionado ao público mais jovem. Na FLIP ZONA foram exibidos diversos filmes e documentários, muita coisa criada pelos jovens no local, utilizando a câmera de seus celulares.

SÁBADO É DIA DE FLIPINHA

A Praça da Matriz foi uma atração a parte. Estava toda decorada com bonecos tirados das muitas poesias de Bandeira. Havia também "pés de livros", assim a molecada que passava por ali, podia sentar debaixo de uma árvore e fazer uma leitura. Era muitos livros pendurados. Também estavam por ali algumas mocinhas de voz suave e doce, colocavam um tubo colorido em nossos ouvidos e recitavam versos de Manuel Bandeira. Era tudo mágico, mesmo para os adultos que lotaram a praça no sábado. Algumas fotos:

Café com pão
Café com pão
Café com pão
Virgem Maria que foi isto maquinista?
Agora sim
Café com pão
Agora sim
Café com pão
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
...


Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!


Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor

Imagino Irene entrando no céu:

- Licença, meu branco!

E São Pedro Bonacheirão:

- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.






E na tenda da Flipinha: Ruth Rocha e Bia Hetzel!

Foi o único bate-papo que assisti na tenda da flipinha e valeu muuuuito a pena! Ruth Rocha está completando 40 anos de carreira, mais de 130 livros publicados, em muitas línguas. Autora do clássico - e por que não um clássico?! - Macelo, Marmelo, Martelo, mediada pela também autora de livros infantis Bia Hetzel, falou sobre começo de sua carreira, aos 38 anos, comentou quais são seus livros favoritos e respondeu a muitas perguntas das crianças maravilhadas com o tom doce de vovó de Ruth Rocha.

Ruth Rocha e Bia Hetzel respondendo a perguntas das crianças

Á noite, a estrela mais brilhante da festa: António Lobo Antunes


A mesa “Escrever é Preciso”, com António Lobo Antunes e Humberto Werneck, começou quase em silêncio. Um silêncio curioso, desses que fazem a plateia inclinar o corpo para a frente, esperando que algo aconteça. Lobo Antunes demorou a falar. Parecia medir o tempo, observar o ambiente, como quem ainda chega a um lugar.

Quando finalmente começou, vieram os aplausos — e depois outros, e mais alguns. Cada frase parecia cair na sala como uma pequena revelação.

Para mim, muito do que ele dizia era novidade. Descobri, por exemplo, a relação íntima que o autor sente com o Brasil. Um de seus avôs viveu por aqui, e Lobo Antunes contou que o Brasil não é, para ele, apenas um país. “O Brasil é um cheiro”, disse. “É a comida, são as maneiras de viver e falar.” O Brasil, segundo ele, é uma coisa íntima.

Falou também da poesia brasileira com a familiaridade de quem a habita: Drummond, Murilo Mendes, João Cabral. Citou ainda Paulo Mendes Campos, poeta mineiro que, segundo ele, continua pouco conhecido até mesmo entre nós.

Disse algo que ficou ressoando em mim: a poesia ensina mais do que a prosa. Quando lê prosa, contou, sente vontade de corrigir o texto a todo momento. E corrigir, para ele, é quase um segundo trabalho. “É preciso criar com a cabeça e corrigir com as mãos”, explicou.

Para quem quer escrever, deixou uma imagem inesperada: assistir a um jogo de Garrincha. “É preciso pensar como um Didi”, disse, “e ter a habilidade de um Garrincha”.

Falando sobre o trabalho do escritor, afirmou que todo livro é uma metáfora — e também uma reflexão profunda sobre a própria arte de escrever. E deu um conselho simples e radical: para escrever bem, é preciso cortar. Cortar advérbios, cortar adjetivos. Cortar tudo o que for excesso.

Mas talvez o momento mais bonito tenha vindo com uma lembrança. Lobo Antunes contou de uma temporada na França com Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro. Quatro da manhã, e Ubaldo na cozinha preparando uma feijoada. Alguém perguntou se ele ainda escrevia. Ubaldo respondeu, com humor:
“Sim. Meu pseudônimo é António Lobo Antunes.”

Saí da mesa com a sensação de ter estado em outro ritmo de tempo. Foi, para mim, a melhor conversa da FLIP — a mais verdadeira, a mais tocante, a mais bonita.

Parecia que todos nós estávamos sendo embalados pela voz de Lobo Antunes, como se a noite tivesse entrado em balanço.
e ele só acendeu o cigarro quando chegou na mesa dos autógrafos...

FLIP 2009 - sexta-feira

Mal começou o dia e fomos apressados assistir a mesa "Evocação de um poeta", de pé mesmo, do lado de fora da tenda do telão. Na mesa, os três novos poetas brasileiros, Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz e Angélica Freitas debatiam a atualidade do poeta, o momento misterioso ou ainda rotineiro da criação, suas influências e fizeram leituras belíssimas de poemas como "Porquinho-da-índia", "Namorados", "Maçã" e "Evocação do Recife", bonitas escolhas para evocar a simplicidade do poeta homenageado, Manuel Bandeira. Em sua última fala, Angélica Freitas, leu "Belo Belo"de Bandeira:
Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdad e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero

Leia aqui a entrevista com a poeta Angélica Freitas na revista Vila Cultural.


Seguindo para o centro histórico, passeando pelas ruas de calçamento "pé-de-moleque" fui percebendo a FLIP, a cidade toda em festa, num outro ritmo, palavras, música, cores e poesia. Algo como visitar o Sítio do Pica-Pau Amarelo quando criança.



Compartilhar, criar, trocar. Por todos os lados novos artistas tentando vender seu peixe. Fantasiados, simpáticos ou mesmo declamando versos, estavam mesmo tentando. Ganhamos muita coisa. Como outros que estavam por ali, o casal Macambira e Queridinha, em sua primeira FLIP, escritores de Cordel vindos de Esperança - PB, circularam por todos os lados, todos os dias e eu não podia deixar de trazer alguns exemplares.


De estômago forrado, fomos passear de charrete, a promessa era a de saber mais da história de Paraty, por quem mora lá. O moço falou sobre a fundação da cidade (entre 1540 e 1560), mostrou as casas dos famosos, e entre outras coisas, explicou algo interessante e engenhoso a cerca da construção do centro histórico, que está abaixo do nível do mar, assim, quando a maré subia, lavava as ruas e levava com ela toda a sujeira, por não haver rede de esgoto na época. Hoje as águas ainda invadem o centrinho até certo ponto.




Também foi curioso aprender a origem de algumas expressões como "sem eira nem beira" e de "feito nas coxas" - o telhados das casas eram montados por telhas confeccionadas nas coxas das mulatas, ficando então irregulares - daí a expressão "feito nas coxas" para exemplificar algo mal feito. Além disso, os telhados poderiam ter ou não um acabamento, eira, beira e tribeira. Quanto mais "eiras", mais nobre era a família. Quando um sujeito perdia seus bens, perdia também suas "eiras", ficando sem eira nem beira.















No meio da tarde, andando pela Samuel da Costa, encontramos um grupo - não tenho certeza se local, provavelmente sim, numa batucada de MARACATU! Nada como uma batucada para sacudir o corpo e as ideias, dando mais energia para o resto do dia.





Fim de tarde chegou: Cristovão Tezza e o mexicano Mario Bellatin debatem "O eu profundo e os outros eus" - Tezza publicou em 2007 O Filho Eterno , um misto de ficção e autobiografia da relação de um jovem pai com o filho que tem síndrome de down, já escrevi um pouco sobre o livro aqui. Para o brasileiro , a ficção é um modo de compreensão do mundo e o fato biográfico é mais um elemento da realidade. Ainda citou Paul Auster: "uma vida só existe se se narra".

Já Bellatin afirma não se inspirar em sua vida para criar suas personagens - estas tem deformações congênitas, bem como o autor que nasceu sem o antebraço - apareceu na tenda dos autores com uma prótese em formato de pênis. O autor disse que procura se distanciar do que escreve para se tornar leitor dele mesmo, numa tentativa de desaparecer como autor.
Ambos autores leram trechos de suas novas obras.




A Editora Record distribuiu um trecho inédito do novo livro de Cristovão Tezza, Um Erro Emocional, leia aqui.


O LEITE DERRAMADO AZEDOU


Sexta-feira, 19 horas. A mesa "Sequências brasileiras" foi em disparado a mais concorrida, Milton Hatoum e Chico Buarque - ingressos esgotados na primeira hora ds vendas. Claro que eu também não consegui. Mas paciência, ficarei contente em receber os autógrafos dos autores em meus livros! O debate começou e eu já estava lá, a primeira na fila dos autógrafos. A cada minuto chegava mais e mais gente. Parecia que o debate não ia acabar nunca. Eles esticaram - e muito - o papo, mas dali não conseguia ouvir uma palavra sequer.
E a equipe da FLIP começou assim: - Não sabemos se ele (Chico) vem, não tem nada confirmado. Outra fala: - Não formem fila. - E ainda: - Não há uma fila oficial. - Quando uma multidão seguia crescendo.
Depois de algum tempo: - Ele virá, mas só irá autografar 100 livros, vamos distribuir senhas. - E eu: - E o Hatoum? E o Hatoum??
Sim, é claro que Chico Buarque e seu belo par de olhos causam todo esse frenesi e histeria, mas gente, e o Miltom Hatoum?! - Sim, ele virá também, está confirmado.
A próxima instrução dada a nós foi assim: - Ele só autografará um livro por pessoa, guardem os outros, vamos lá, pessoal, um livro só nas mãos.
A moça olhou para mim, um tanto arisca: - Pode guardar esses livros, só um por pessoa.
- Mas esses são do Hatoum, minha senhora!
O último comando foi assim: - Não adianta colocar seus nomes em papeis, ele só irá assinar o nome dele.
Ai ai. Cansei, cansei mesmo, coisa mais irritante - vou mandar essa historinha verdadeira para a Fernanda Young. Nada é mais irritante do que esperar por duas horas por alguém que não está a fim. Melhor seria não aparecer.
A mesa terminou, fico na ponta dos pés e vejo uma correria, uma GALERA chegando com tudo. O segurança ao meu lado, ainda mais alto que eu (meço 1,80m) estava tenso, bem tenso. E mais seguranças foram chegando. Medo do empurra-empurra. Eu só queria sair logo dali.
O Chico chegou primeiro, a maior berraria histérica de meninos e meninas. Mal aplaudiram o Hatoum que chegou logo depois. Eu ainda esperei o Chico Buarque autografar uma pilha de livros da equipe da FLIP. Pronto, enfim liberada:
- Chico, é para minha filha, Clarice. - E ele rabiscou qualquer coisa. Eu: - Obrigada.
Sigo em direção ao Milton Hatoum, toda encabulada: - É um prazer estar aqui (dãh). Ele sorriu, viu meu nome e o do Kleber: - Kleber? - E eu: - Meu marido. - Fez uma dedicatória.
No segundo volume que entreguei a ele havia anotações logo na primeira página, ele me olhou com cara de interrogação: - Somos estudantes de literatura e professores também. - Agora senti firmeza, Luciana! risos. E mais uma dedicatória carinhosa. Ele ainda estendeu a mão e eu atrapalhada, demorei um pouco a corresponder.
Preciso dizer mais alguma coisa?















a primeiríssima da fila






Milton Hatoum autografando meus livros

FLIP 2009 - quinta-feira

Chegamos a Paraty na hora do almoço, tempo nublado e aquela fome de mais de três horas de viagem. Parando por perto da Rua Domingos Gonçalves de Abreu avistamos alguns restaurantes e fomos passando de porta em porta - sempre aquele ar de botequim carioca que eu amo! Mas foi um certo Margarida Café que nos encantou pelo ambiente charmoso, colorido e musical. O almoço foi perfeito, mas "salgado".














Aproveitando o momento AINDA
sem chuva, levamos a pequena
para ver o mar, pela primeira vez,
na Praia do Jabaquara. E ela não
hesitou em caminhar até a água
e a brincar de correr atrás de recuo
da maré.







No começo da noite, seguimos para a mesa do neodarwinista Richard Dawkins, biólogo inglês que lotou as tendas dos autores e do telão. A mesa mais frequentada por jovens das quais estive. O professor aposentado tem se mostrado um sério defensor do ateísmo, e busca apresentar ao público uma forma mais simples de se entender a Teoria da Evolução. Parecia mesmo tentador.
A associação que o autor fez entre The Canterbury Tales e sua perspectiva de uma romaria "para trás", dos povos em busca da origem da vida foi bastante bacana. Mas me parece que sua ideia de deus foi um tanto materialista e superficial, talvez uma maneira de nos fazer curiosos e procurar seus livros. Acho que irei fazê-lo. Esperava algo mais polêmico, afinal o Brasil é tããão católico...
Para quem ficou curioso, seguem alguns trechos inéditos do livro "O Maior Espetáculo da Terra" distribuído na FLIP pela Companhia das Letras.

02 junho, 2009

Decepção....

Os ingressos para TODAS as tendas dos autores na FLIP esgotaram praticamente na primeira manhã! Irei assistir na tenda do telão, o que não é exatamente a mesma coisa....

29 maio, 2009

Saiu a progamação e mediadores da FLIP!


Divulgados todos os mediadores e alterações na programação da Feira Internacional de Literatura de Paraty - FLIP, que terá Adriana Calcanhoto no show de abertura. Confira aqui a programação!

Faltam 33 dias!

20 abril, 2009

FLIP 2009

A sétima edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece entre 1º e 5 de julho está IMPERDÍVEL, alguns dos convidados confirmados: Antônio Lobo Antunes, Milton Hatoum, Chico Buarque, Cristóvão Tezza, Carlos Fuentes, Dawkins, Alex Ross,Sophie Calle, Atiq Rahimi, Catherine Millet, Anne Enright.

Quem vai??

http://www.flip.org.br/sobre_flip.php3