15 maio, 2009

Dia das Mães

Essa foto merece ser mostrada. É do ano passado, Clarice deveria estar com uns 6 meses. Coloquei as mamadeiras, colher e outros utensílios para ferver e fui para a sala trabalhar umas caixinhas que estava pintando. Um cheiro horrível invadiu toda a casa. Ai ai , esqueci os plásticos na panela, e esse foi o resultado. Ficou pendurado acima do fogão por um tempo. Agora, Clarice não usa mais mamadeiras, não é necessário ferver nada, então tirei a foto para guardar o momento! Coisa de mãe mesmo, tantas preocupações na cabeça e tão avoada ao mesmo tempo!
O último Dia das Mães ficou registrado nessa foto: dinda e Júlia, tio Zé e Clarice, as meninas estão crescidas!







28 abril, 2009

para pat


* Pazé, Transeunte, 2001 (MAM na Oca, 2006)


Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta?
Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?...
Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido?
O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

Álvaro de Campos

25 abril, 2009

Dilema carnal

Derrubem o bacon.... A gripe suína está chegando !!!!! E eu ainda não estou curada da minha gripe aviária. Será que volto a ser vegetariana?!!!

20 abril, 2009

FLIP 2009

A sétima edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece entre 1º e 5 de julho está IMPERDÍVEL, alguns dos convidados confirmados: Antônio Lobo Antunes, Milton Hatoum, Chico Buarque, Cristóvão Tezza, Carlos Fuentes, Dawkins, Alex Ross,Sophie Calle, Atiq Rahimi, Catherine Millet, Anne Enright.

Quem vai??

http://www.flip.org.br/sobre_flip.php3

13 abril, 2009

meu pé na mãe áfrica


Painel


feito para o kleber com carinho.

O cigarro de Sade - LUIZ FELIPE PONDÉ

Não poderia deixar de registrar por aqui a coluna do Pondé de hoje, para variar, GENIAL!

Temo pessoas que não têm vícios. O novo hipócrita
é magérrimo, "verde" e antitabagista

SADE É sem dúvida um autor famoso. Para alguns, ele é um gênio que grita pela liberdade em meio ao século das Luzes (um Voltaire maníaco por sexo), para outros, mero tarado sexual com dotes literários medíocres. Apesar de tê-lo lido com alguma atenção e entender um pouco o que os especialistas veem nele, suspeito que, antes de tudo, seu sucesso se deu porque ele era um nobre "em desgraça" que escrevia pornografia pesada (quem não gosta?). Se ele estiver certo, somos todos tarados sexuais. Mas levemos a sério sua "crítica" e vejamos aonde ela nos levaria hoje.Sade funda uma "tradição" que é ver no sexo algo além dele. Muitos o seguiram nessa suspeita de que sexo é mais do que sexo. O Sade político ou psicanalista é o mais famoso. Mas há um Sade "metafísico". Segundo sua metafísica, a Natureza é perversa e cruel e, portanto, a rigor, não há crime ou transgressão porque a regra é o crime e a transgressão. Nesse sentido, ele se aproxima muito dos cristãos antigos conhecidos como gnósticos, caras que afirmavam que o mundo foi criado por um deus mau. Segundo o que nos legou os críticos desses gnósticos, alguns deles se entregavam a todo tipo de sexo, menos o reprodutivo, como forma de desafio ao deus mau. Diriam eles: "Veja, oh! Miserável deus, você nos fez gostar de sexo para reproduzir suas vítimas, por isso fazemos apenas sexo estéril". Já há aqui algum indício da "sexualidade de protesto". Mas o Sade político e psicanalista é mais fácil de circular em jantares inteligentes. Seus frequentadores são consumidores envergonhados de antidepressivos, não aturam pessimismo de gente grande como a metafísica de Sade. A política sadiana identifica na moral social a intenção de nos destruir pela repressão do desejo. Quem busca a "virtude", como sua personagem Justine, é objeto "feito" para ser torturado por uma sociedade que dá corpo à crueldade da Natureza louca. A revolta nesse caso é ser sexualmente "livre": transformar-se no libertino, ou seja, no torturador, identificando-se com a "regra da crueldade gostosa".Já o Sade psicanalista é aquele que "pressente" o gozo da pulsão de morte como natureza essencial do animal louco que seríamos. Violência, revolução e gozo. Depois dele, nunca mais fomos para cama com alguém sem levar junto Freud (mamãe e papai), Marx (e a ideologia de classe), Foucault (e a microfísica do poder invisível), enfim, haja cama grande para tanta gente. Não fazemos mais sexo, fazemos política e sintomas quando temos tesão por alguém. Confesso que no fundo acho esse papo de perversão sexual meio "boring" (um saco): bater, queimar, cortar, apanhar, ser queimado, ser cortado. A mesma lengalenga de sempre. A morte para um perverso é achá-lo entediante. Na realidade, a política sadiana hoje está espalhada em sites sado-maso banais. Acho mais interessante imaginar o que Sade teria escrito hoje, se vivesse em nossa época, dada a delírios de uma nova "pureza". Imagine, caro leitor, que existem pessoas que "salvam" o mundo comendo alface! Um exército de rúculas! O que seria transgressivo no caso da "nova pureza"? Tiraria ele sarro do "pai Obama"? Ou talvez ele fumaria um cigarro no meio de um templo onde se reúnem os fascistas da saúde?Mas tabaco faz mal! Claro que sim, mas ser violentada por cinco caras também faz mal. Fazer sexo nos telhados, como gatos, também faz mal. Por que achar que isso é libertador e fumar não? Vamos adiante, quem é o novo Sade? Que tal comer gordura trans? Ou será que a "ciência da comida saudável" já mudou de novo e agora comer gordura trans combate ataques cardíacos? Vejo um Sade gordo, dilacerando uma picanha em meio a um restaurante de comedores de rúculas. Chorariam? Ou o espancariam? Vaquinhas jamais, mas sádicos comedores de carne e fumantes merecem uma surra? Ou apenas desprezo e nojo? Os nazistas também eram defensores dos animais... Sua Sodoma seria deliciosamente poluída, rindo das "medições" do aquecimento global. No lugar da teoria Gaia da "mãe terra", a "devoradora terra" gargalhando de nossa "devoção verde". O Sade do sexo envelheceu. Hoje todo mundo acha chique achá-lo chique. O novo Sade é aquele que, talvez, debocharia de uma sociedade da saúde. O que nos humaniza são os vícios, não as virtudes. Temo pessoas que não têm vícios. O novo hipócrita é magérrimo, "verde" e antitabagista.

03 abril, 2009

passatempo


Resolvi me aventurar dentre os tecidos, esse foi o resultado!

29 março, 2009

prêmio dardos 2009


Olha só!

O Purpurina de Rua foi indicado ao Prêmio Dardos 2009,
por intermédio de Fernamdo Rovéri.

O Prêmio Dardos “reconhece os valores que cada blogueiro mostra a cada dia,
seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários,
pessoais etc. em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento
vivo que está e permanece intacto entre suas letras, suas palavras”.

Agora minha função é indicar outros cinco blogues:

Leituras do Giba
Gilberto Pereira
Jeferson De
Laura Caselli
Cristiano Pluhar
Adriano Mello Costa


Os indicados devem exibir o selo do prêmio em seus respectivos blogues, indicar outros cinco e avisá-los sobre a indicação.

24 março, 2009

Hora do Planeta

Às 20h30 do dia 28 de março de 2009, cidades em
todo o planeta irão apagar as luzes durante uma
hora, num ato simbólico, como uma eloquente
mensagem de que é possível agir contra o
aquecimento global e as mudanças climáticas.


http://www.wwf.org.br/informacoes/horadoplaneta/como_participar/

22 março, 2009

Saint Exupéry na Oca


Saiu na Folha: Exposição "O Pequeno Príncipe na Oca", de outubro a janeiro de 2010, com montagem de Daniela Thomas e Felipe Tassara, a mostra fará da Oca uma espécie de planeta do Pequeno Príncipe.

Deixo aqui uma de minhas adaptações, "A Oferenda do Príncipe", de 2006.














sulfite, guache, plástica



(Insensatez - Tom Jobim / Vinicius de Moraes)

A insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor
O seu amor
Um amor tão delicado
Ah, porque você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração que nunca amou
Não merece ser amado
Vai meu coração ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai, meu coração pede perdão
Perdão apaixonado
Vai porque quem não
Pede perdão
Não é nunca perdoado

21 março, 2009

Dia Internacional da Síndrome de Down

Em comemoração ao dia de hoje deixo uma dica literária: "O Filho Eterno" de Cristovão Tezza.

“Um filho é a ideia de um filho”; e que, nem sempre, “as coisas coincidem com as ideias que fazemos delas”. Este inconformismo entre sonho e realidade reflete a busca desse andarilho: tornar-se pai.

Trecho para vocês:

"Várias vezes por dia, em sessões de cinco minutos, a criança é colocada sobre a mesa da sala, de bruços. De um lado, ele; de outro, a mulher; segurando a cabeça, a empregada, uma moça tímida, silenciosa, que agora vem todos os dias. Três figuras graves numa mesa de operação. De bruços, a face diante da mão esquerda, que avança ao mesmo tempoem que a perna esquerda também avança; braço esquerdo e perna direita fazem o movimento simétrico de lagarto, sob o comando das mãos adultas, que são os fios da marionete, quando a cabeça é voltada para o outro lado. Há uma cadência nisso - um, dois, feijão com arroz, três , quatro, feijão no prato - a mesma dos passos humanos; uma rede tentaculardo sistema neurológico há de estabelecer dominância cerebral e tudo que dela decorre, ele sonha. No programa, é fundamental reforçar a dominância cerebral, isto é, marcar um dos lados do cérebro como o dominante. Os três se movem como autômatos, naquelas curtas sessões de cinco minutos quase que de hora em hora, quando ele interrompe o livro que escreve - apareceu um bebê no seu livro, o menino Jesus, filho de um burguês vampiro, picareta de imóveis que em 1970 faz discursos edificantes sobre o bem, a moral e os bons costumes, enquanto suga literalmente o sangue da aorta de mulheres jovens e indefesas - e vai para a linha de produção de seu próprio filho. O seu personagem sempre tem o cuidado de proteger os furos caninos n pescoço das vítimas, que desmaiam, com delicados bandeides. O escritor fecha os olhos: talvez seja a ciança que, do seu silêncio, esteja comandando os gestos cadenciados, quase militares, dos três adultos em torno del, e o pai lembra a piada dps pombos que adestram os humanos - e sorri.
Em 1975 estava na Alemanha como imigrante ilegal. Pediu dinheiro emprestado para a passagem de trem Coimbra-Frankfurt e desembarcou na Hauptbahnhof com algumas moedas no bolso, um endereço e o esboço de um mapa das ruas. Era perto dali - poderia ir andando. Atravessou a bela ponte sobre o Main com a mochila nas costas, tentando vencer o pânico que começava a lhe tomar conta da alma. Não conseguia viver completamente o papel juvenil de um Marco Polo descobrindo o mundo, que desenhara para si mesmo. A mítica Alemanha dos livros que leu - Goethe, Thomas Mann, Günter Grass: ele estava ali, pisando aquele solo.Mas havia o medo, onipresente. Se não encontrasse trabalho, o que faria? Era incapaz de dizer uma só palavra e alemão. Chegou enfim ao prédio imenso do Hospital das Clínicas - a interminãvel sequência de letras na fachada lhe sugeria isso, aos pedaços - e foi direto ao subsolo, seguindo as instruções. Deveria procurar um certo Herr Pinheiro. Herr Pinheiro era um simpático argelino que falava todas as línguas do mundo. O medo agora dava espaço para uma euforia crescente - mal terminou de indagar e já foi conduzido a um vestiário, onde recebeu um uniforme todo branco e um armário para guadar suas coisas. Sete marcos a hora, a proposta. Nem precisou dizer sim- sorriu. Euforia. Dominância cerebral, ele pensava, como um mantra, cadenciando os gestos do filho sobre a mesa. Um escravo do antigo Egito, levado às gargalhadas para remar o barco dezoito horas por dia na escuridão do porão - ele riu com a imagem - só pela satisfação de continuar vivo, aguentar a arquitetura daqueles ossos em pé, nem que seja por um único dia a mais. Tão estúpido que veste o uniforme sobre a calça e a camisa, e sai dali um repolho ridículo, até que no corredor uma mulher sorridente, falando uma língua impossível, explicas em gestos bruscos, mas maternais, que ele deve antes tirar a roupa para só então colocar o uniforme. Finalmente adequado, entra na gigantesca lavanderia do hospital. Tempos modernos, ele lembra, estetizando a vida - Chaplin na linha de produção. Como se sente escritor, vive equilibrado no próprio salvo-conduto, o álibi de sua arte imaginária, o eterno observador de si mesmo e dos outros. Alguém que vê, não alguém que vive.
Pega a criança no colo, depois da série de movimentos, e repete a canção idiota que inventou no esforço de construir a imagem de um pai, que ainda não encontra em si mesmo - Era um pitusco pequeninho bonitinho safadinho bagunceiro... - e o devolve ao chão, de face para baixo. A ideia do tempo - não, a presença física do tempo mesmo - só é percebida integralmente quando opróprio tempo, de fato, começa a nos devorar. Antes disso (ele divagará anos depois) , o tempo é a marcação do calendário e mais nada; durante um bom período da vida parece que há uma estabilidade, uma espécie tranquila de eternidade que escorre em tudo que pensamos e fazemos. Derrotamos o tempo; corremos mais rapidamente que ele. Se o demônio aparecesse ali, ele faria o pacto - e sorriu com a ideia. O pai abre o livro de Piaget sobre a inteligência da criança e testa o filho todos os dias - uma corrida contra o tempo, sim, mas nessa época o tempo ainda está imóvel, o que facilita as coisas. Neste momento, se eu ponho esse bonequinho de plástico no chão o bebê vai atrás e vai tentar agarrá-lo; mas se eu ocultá-lo com a mão ou o lenço, a criança vai se desinteressar por completo, como se o boneco desaparecesse. Faz o teste: é verdade. Fica feliz: uma criança normal, fantasia ele. Mais um pouco e o bebê será capaz de reconhecer o boneco apenas pelo pé que ficará à mostra. Talvez amanhã. Ou depois de amanhã. Há um prazo razoável na normalidade. Por enquanto ele ainda não reconhece o boneco apenas pelo pé - o que é normal, ele confere no livro.
Mas o treinamento não terminou. No canto da sala o marceneiro instalou a peça encomendada: uma rampa estreita de madeira que tem a forma de um escorregador para bebês, com proteção lateral. Um linóleo cobre a superfície da madeira. É preciso que essa superfície não seja áspera demais, que não permita o movimento, e nem lisa demais, que leve o bebê a escorregar. A sala se transforma aos poucos num espaço de trabalho; a casa, numa extensão de uma clínica - logo com ele, que passou a vida odiando médicos, hospitais, tratamenos, enfermeiras, remédios, doenças, corredores, morte- uma coisa puxa a outra. Coloca o bebê no topo da rampa, com a cabeça par baixo. Vamos lá, pitusco! Os braços da criança, que está de bruços, impedem naturalmente que ela escorregue - ma so mínimo movimento que ela fizer permiti-lhe descer alguns centímetros. Cria-se uma situação concreta para ajudar o bebê a reencontrar a sua estrada neurológica; segundo a cartilha, a descida da rampa é um auxílio para acelerar o desenvolvimento do rastejar em padrão cruzado, o das crianças normais. Não está no programa, mas o pai ainda coloca um despertador intermitente lá embaixo, no fim da viagem, como um estímulo a mais. A criança não vê o despertador, mas ouve o som estridente, que seus olhos procuram ainda em vão, do alto de seu pequeno abismo.
Deixa lá a criança e tranca-se no quarto para escrever seu livro. O demônio aparece em suas páginas na forma de um dito. Faz dicursos beletristas e virulentos contra DEus e o mundo, e conspira para o fracasso do Ensaio da Paixão, tema do romance. Expressão de um cinismo mal resolvido, hás um toque pesado de grotesco na sua figura. É preciso evitar o estereótipo, ele sabe, pensando alto e longemas não dispõe ainda de um imginário alternativo sólido; vive um mundo, parece, que se esforça duramente para a simplificação mental, e é preciso fugir dela a todo custo. às vezes, tem a viva sensação de que é escrito pelo que escreve, como se suas palavras soubessem mais que ele próprio. (Não sabemos tudo ao mesmo tempo; avançamos soterrando camadas de conhecimento, ele divaga.) Acende outro cigarro e vai à sala - a criança já desceu meio metro. Dá mais corda no despertador - o queijo do ratinho - e volta correndo ao quarto: uma frase imperdível lhe surgiu.
O trabalho na lavanderia era mecânico - uma enorme garra de ferro descia do alto com toneladas de roupas lavadas, largando-as num balcão, e a função dele era separá-las rapidamente. Toalhas de banho, toalhas de rosto, lençóis, fronhas, cada tamanho num carrinho, que assim que ficavam cheios, eram levados para as passadeiras, que por sua vez gastavam as horas esticando manualmente as peças para ofertá-las a uma espécie de impressora rotativa que engolia aquilo, devolvendo tudo dobrado para as mãos de alguém que, com outro carrinho, desaparecia por uma porta distante, de volta ao prédio central."




O filho eterno . Romance. Editora Record, 2007. 223 p.
Prêmio Jabuti - melhor romance
Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) - melhor obra de ficção
Prêmio Bravo! - Livro do Ano
Prêmio Portugal-Telecom de Literatura em Língua Portuguesa - 1º lugar
Prêmio São Paulo de Literatura - Melhor livro do ano 2008


http://www.cristovaotezza.com.br/critica/ficcao/p_fic_o_filho_eterno.htm

12 março, 2009

Dia do bibliotecário

Depósito de Livros
Luzes do Silêncio
Legados Humanos
Diálogos Poéticos
Palavras-coisas
Pequenas Encenações
Jogos da Linguagem
Versos Tecidos
Dúplices Palavras
Sentimentos Atemporais
Observatório da Freguesia
Amálgama do Mundo
Imagem Romântica

09 março, 2009

à maneira provençal - haroldo de campos

carmen castelã domina
estas torres de palavras
que eu construo como quem
junta limalhas de ferro
fazendo da língua imã


amor vendado de ouro
com dedos de purpurina
traça no ar o desenho
de som de sentido e sina


carmen castelã domina
estas torres de linguagem
imagem de mãe e filha
rosto de amante e menina
senhal miragem poesia


e o tempo de chá e Proust
se dissolve qual neblina
volta a manhã volta a noite
o escuro se faz matina


e é tudo como se fosse
a mesma matéria-prima
de vida revisitada
de instante que não termina:
carmen castelã domina
o tempo reprimavera
na trama da luz mais fina
neste castelo de ar
carmen castelã domina
feto de ser e de tempo
que o imã da língua junta
qual limalha de platina


amor vendado e vidente
aos pés do castelo assina
seu mistério e grava o nome
com selo de turmalina


diz camões que o amador
na coisa amada se ultima
horácio diz: carpe diem
curte o tempo: flor que fina


mas aqui o tempo tira
da garganta a mão mofina
s’insempra – Dante diria
se enamora: repristina


amor dessela o mistério
que tem seu nome por cima:

“amor mais forte que a morte”
diz a pedra turmalina

neste castelo de torres
carmen castelã domina

uma idéia infantil

quando criança, morando no rio de janeiro, imaginava que todos aqueles morros eram monstros de pedra enormes, deitados, adormecidos, milenares protetores da cidade.
um
dia
iriam
levantar.
*rio de janeiro, 2007

03 março, 2009

Ensaio sobre a cegueira


"...como se se encontrasse mergulhado de olhos abertos num mar de leite"

O filme começa e logo aquela imagem excessivamente branca toma conta da tela, a fotografia já começa a pertubar. Cenas desfocadas deixam a sensação desconfortável do que seria não enxergar. Repugnância, revolta, e outros sentimentos repulsivos são transmitidos ao espectadores, bem como no livro - claro que a leitura é mais carregada de olhares (escritor, narrador e personagem). Fernando Meirelles não decepciona. Tem a adorada Juliane Moore. E o guapo Gael Garcia Bernal.




Para relembrar, um trecho:

"O mal da rapariga dos óculos escuros não era de gravidade, tinha apenas uma conjuntivite das mais simples, que o tópico ligeiramente recomendado pelo médico iria resolver em poucos dias. Já sabe, durante esse tempo só tira os óculos para dormir, dissera-lhe. O gracejo levava muitos anos de uso, é mesmo de supor que viesse passando de geração em geração de oftalmologistas, mas o efeito repetia-se de cada vez, o médico sorria ao dizê-lo, sorria o paciente ao ouvi-lo, e neste caso valia a pena, porque a rapariga tinha os dentes bonitos e sabia como mostrá-los. Por natural misantropia ou demasiadas decepções na vida, qualquer céptico comum, conhecedor dos pormenores da vida desta mulher, insinuaria que a bonitez do sorriso não passava de uma artimanha de ofício, afirmação maldosa e gratuita, porque ele, o sorriso, já tinha sido assim nos tempos não muito distantes em que a mulher fora menina, palavra em desuso, quando o futuro era uma carta fechada e a curiosidade de abri-la ainda estava por nascer. Simplificando, pois, poder-se-ia incluir esta mulher na classe das denominadas prostitutas, mas a complexidade da trama das relações sociais, tanto diurnas como nocturnas, tanto verticais como horizontais, da época aqui descrita, aconselha a moderar qualquer tendência para juízos peremptórios, definitivos, balda de que, por exagerada suficiência nossa, talvez nunca consigamos livrar-nos. Ainda que seja evidente o muito que de nuvem há em Juno, não é lícito, de todo, teimar em confundir com uma deusa grega o que não passa de uma vulgar massa de gotas de água pairando na atmosfera. Sem dúvida, esta mulher vai para a cama a troco de dinheiro, o que permitiria, provavelmente, sem mais considerações, classificá-la como prostituta de facto, mas, sendo certo que só vai quando quer e com quem quer, não é de desdenhar a probabilidade de que tal diferença de direito deva determinar cautelarmente a sua exclusão do grémio, entendido como um todo. Ela tem, como a gente normal, uma profissão, e, também como a gente normal, aproveita as horas que lhe ficam para dar algumas alegrias ao corpo e suficientes satisfações às necessidades, as particulares e as gerais. Se não se pretender reduzi-la a uma definição primária, o que finalmente se deverá dizer dela, em lato sentido, é que vive como lhe apetece e ainda por cima tira daí todo o prazer que pode."

Título Original: Blindness
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 120 minutos
Ano: 2008
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Don McKellar, baseado em livro de José Saramago
www.ensaiosobreacegueirafilme.com.br

01 março, 2009

feliz rio!



notório
simplório
inspiratório
renovatório
relicário
delírio
diário
unitário abecedário casório imaginário
confessionário
incendiário
colírio
território
transitório
aniversário
sorrio
rio.


* pão de açúcar, 2007

28 fevereiro, 2009

O signo da cidade

Todos tem um rumo a seguir, nessa cidade maluca, cada cano transporta destinos unidos por sentimentos em comum...


Histórias humanas - das enfermidades, da mentira, da loucura, da solidão, do desespero - que parecem desconectadas se enredam numa engenhosa teia, entre acasos e coinscidências. Apesar das características trágicas particularmente brasileiras, é possível encontrar, no filme , elementos do trágico, porque a essência da tragédia está no coração do homem.



Trilha sonora
Direção: Carlos Alberto Riccelli
Elenco: Bruna Lombardi, Juca de Oliveira, Eva Wilma, Denise Fraga e Graziella Moretto
Produção: Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli
Roteiro: Bruna Lombardi
Ano: 2007
País: Brasil
Duração: 95 minutos

http://www.osignodacidade.com.br/pt/

26 fevereiro, 2009

Sangue Negro, 2007

petróleo
pré-crise
violência
fanatismo religioso
ódio
estados unidos
mãos sujas
sangue negro
arrepiante
império
solidão
mentiras
manipulação
mais sangue
silêncio



O melhor filme dos últimos tempos.
(There Will Be Blood, 2007)
Gênero: Drama
Duração: 158 min
Origem: EUA
Estúdio: Buena Vista International
Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi, Joanne Sellar

trailer

22 fevereiro, 2009

carnaval

a festa da carne
a carne na brasa
carne em paetê
carne salgada
carne nos lençóis

ou ainda espremida contra o muro.
e os de espírito cativo, encarnados,
passaram a madrugada louvando.

fantasia dionisíaca
que é brasil
brincadeira de esconder,
fétida fornada.
santa carnificação.