06 julho, 2009

FLIP 2009 - sábado


Acordamos e ficamos surpresos com o bom tempo na cidade, a previsão era de chuva, muita chuva. Aliás, uma das coisas engraçadas dessa viagem foi o guarda roupa invernal dos flipeiros. Não foi muito diferente comigo. Mas sabendo que estaria no Rio de Janeiro, levei sandálias e camisetas além dos casacos e cachecóis, uma mala tipicamente feminina, com quase todas as opções... A manhã era ideal para se caminhar, então seguimos pela beira mar, na Rua da Praia, conhecemos a Igreja de Nossa Senhora das Dores que acabara de ser aberta depois de ficar oito anos fechada para reformas. Fiz três pedidos.


As construções em frente ao mar são ainda mais bonitas e maiores, como nessa foto ao lado, um casarão muito bem conservado, com ar-condicionado, um quintal cheio de plantas e com direito a cachorro!

As portas das casas no centro histórico são mais altas, e tem alguns degraus para o piso térreo, para evitar a entrada da água.

Caminhamos até o cais, por ali nem sinal de flipeiros, todos estavam por perto das tendas, assim ficou fácil perceber a tranquilidade da vida local: muitos pescadores e artesãos.

Voltando ao centrinho, as ruas ainda vazias, cruzamos com o autor Cristovão Tezza fotografando a cidade. Estar em Paraty em plena FLIP é inesquecível - faz bem aos olhos pelas belas construções, as águas da baía cheia de barcos coloridos, e simplesmente por cruzar com vários escritores andando pelas ruas, bem naturalmente.

Sentamos para um café na livraria da cidade - a única no centro histórico. E depois de ver Cristovão Tezza passar, o Marcelo Tas apareceu para gravar uma entrevista para o canal ESPN ali mesmo na livraria, como coordenador da FLIP ele falou sobre a FLIP ZONA, um dos vários ambientes da Festa de Literatura Internacional, só que com maior destaque para os jovens. Tas afirmou que nas últimas edições do evento, a gurizada ficava um tanto deslocada da festa, os adultos frequentavam as tendas do telão e dos autores, as crianças na flipinha e nada direcionado ao público mais jovem. Na FLIP ZONA foram exibidos diversos filmes e documentários, muita coisa criada pelos jovens no local, utilizando a câmera de seus celulares.

SÁBADO É DIA DE FLIPINHA

A Praça da Matriz foi uma atração a parte. Estava toda decorada com bonecos tirados das muitas poesias de Bandeira. Havia também "pés de livros", assim a molecada que passava por ali, podia sentar debaixo de uma árvore e fazer uma leitura. Era muitos livros pendurados. Também estavam por ali algumas mocinhas de voz suave e doce, colocavam um tubo colorido em nossos ouvidos e recitavam versos de Manuel Bandeira. Era tudo mágico, mesmo para os adultos que lotaram a praça no sábado. Algumas fotos:

Café com pão
Café com pão
Café com pão
Virgem Maria que foi isto maquinista?
Agora sim
Café com pão
Agora sim
Café com pão
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
...


Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!


Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor

Imagino Irene entrando no céu:

- Licença, meu branco!

E São Pedro Bonacheirão:

- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.






E na tenda da Flipinha: Ruth Rocha e Bia Hetzel!

Foi o único bate-papo que assisti na tenda da flipinha e valeu muuuuito a pena! Ruth Rocha está completando 40 anos de carreira, mais de 130 livros publicados, em muitas línguas. Autora do clássico - e por que não um clássico?! - Macelo, Marmelo, Martelo, mediada pela também autora de livros infantis Bia Hetzel, falou sobre começo de sua carreira, aos 38 anos, comentou quais são seus livros favoritos e respondeu a muitas perguntas das crianças maravilhadas com o tom doce de vovó de Ruth Rocha.

Ruth Rocha e Bia Hetzel respondendo a perguntas das crianças

Á noite, a estrela mais brilhante da festa: António Lobo Antunes


A mesa “Escrever é Preciso”, com António Lobo Antunes e Humberto Werneck, começou quase em silêncio. Um silêncio curioso, desses que fazem a plateia inclinar o corpo para a frente, esperando que algo aconteça. Lobo Antunes demorou a falar. Parecia medir o tempo, observar o ambiente, como quem ainda chega a um lugar.

Quando finalmente começou, vieram os aplausos — e depois outros, e mais alguns. Cada frase parecia cair na sala como uma pequena revelação.

Para mim, muito do que ele dizia era novidade. Descobri, por exemplo, a relação íntima que o autor sente com o Brasil. Um de seus avôs viveu por aqui, e Lobo Antunes contou que o Brasil não é, para ele, apenas um país. “O Brasil é um cheiro”, disse. “É a comida, são as maneiras de viver e falar.” O Brasil, segundo ele, é uma coisa íntima.

Falou também da poesia brasileira com a familiaridade de quem a habita: Drummond, Murilo Mendes, João Cabral. Citou ainda Paulo Mendes Campos, poeta mineiro que, segundo ele, continua pouco conhecido até mesmo entre nós.

Disse algo que ficou ressoando em mim: a poesia ensina mais do que a prosa. Quando lê prosa, contou, sente vontade de corrigir o texto a todo momento. E corrigir, para ele, é quase um segundo trabalho. “É preciso criar com a cabeça e corrigir com as mãos”, explicou.

Para quem quer escrever, deixou uma imagem inesperada: assistir a um jogo de Garrincha. “É preciso pensar como um Didi”, disse, “e ter a habilidade de um Garrincha”.

Falando sobre o trabalho do escritor, afirmou que todo livro é uma metáfora — e também uma reflexão profunda sobre a própria arte de escrever. E deu um conselho simples e radical: para escrever bem, é preciso cortar. Cortar advérbios, cortar adjetivos. Cortar tudo o que for excesso.

Mas talvez o momento mais bonito tenha vindo com uma lembrança. Lobo Antunes contou de uma temporada na França com Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro. Quatro da manhã, e Ubaldo na cozinha preparando uma feijoada. Alguém perguntou se ele ainda escrevia. Ubaldo respondeu, com humor:
“Sim. Meu pseudônimo é António Lobo Antunes.”

Saí da mesa com a sensação de ter estado em outro ritmo de tempo. Foi, para mim, a melhor conversa da FLIP — a mais verdadeira, a mais tocante, a mais bonita.

Parecia que todos nós estávamos sendo embalados pela voz de Lobo Antunes, como se a noite tivesse entrado em balanço.
e ele só acendeu o cigarro quando chegou na mesa dos autógrafos...

2 comentários:

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  2. Lu, que delícia viu!!!
    Adorei notícias ... pode me esperar sempre por aqui!
    Bjinhos
    Tati

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